Veja a fala do Cardeal Rylko no Encontro Nacional de Assessores da Pastoral Juvenil

Veja a fala do Cardeal Rylko no Encontro Nacional de Assessores da Pastoral Juvenil

Card. Stanisław Ryłko

Presidente

Pontifício Conselho para os Leigos

Cidade do Vaticano

 Encontro nacional em preparação à JMJ 2013

Brasília, 30 de novembro a 2 de dezembro de 2012

Saudação do Presidente do PCPL

 

Como Pontifício Conselho para os Leigos queremos saudar-vos, caríssimos amigos, aqui reunidos para este encontro nacional em preparação à JMJ de 2013. Vós representais as estruturas da pastoral juvenil das mais diversas partes do Brasil. No caminho de preparação de cada Jornada Mundial da Juventude o país-sede tem um papel fundamental. Aproveito, portanto, a ocasião para agradecer mais uma vez,  em nome do Santo Padre (que há pouco escreveu uma belíssima mensagem aos jovens de todo o mundo),  a toda a Igreja que vive no Brasil, de modo particular à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na pessoa do seu presidente, o Cardeal Raimundo Damasceno, bem como de Dom Eduardo Pinheiro, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude, e de seus colaboradores. Todo o empenho que tem sido feitos neste tempo é um grande investimento para o presente e o futuro do Brasil e da América Latina.

A vossa presença mostra-nos o quanto as Jornadas Mundiais da Juventude têm se tornado força propulsora da solicitude pastoral da Igreja em favor dos jovens. Vós representais uma geração de operadores pastorais que está demonstrando saber extrair sempre novas inspirações das JMJs para orientar o empenho pastoral “ordinário” e para nutrir a paixão e o entusiasmo pelo serviço nas dioceses, nas paróquias, nas diversas associações juvenis e movimentos eclesiais. Possa o Senhor multiplicar os frutos do vosso empenho cotidiano nesta causa que é vital para a Igreja.

Este nosso encontro em Brasília acontece numa fase que é decisiva no caminho de preparação pastoral, espiritual e organizativa da JMJ do próximo ano. Neste tempo em que recebemos tantas graças, é importante também ter um grande sentido de responsabilidade e viva esperança, pois sabemos que o Santo Padre, e com ele toda a Igreja, tem uma grande expectativa em relação a este evento. Quantos jovens de todo o Brasil, da América Latina e dos mais diversos continentes têm-se preparado com entusiasmo para vir ao Rio em julho do próximo ano! Tal peregrinação de fé é um movimento de gratidão do coração dos jovens que respondem ao amor de Cristo que primeiramente veio ao encontro deles, e continuamente vem, através de sinais concretos, como por exemplo a cruz peregrina que atravessa os mais recônditos lugares do país a levar a boa nova aos pobres, libertação aos prisioneiros, arando o terreno da “Terra de Santa Cruz”!

Uma das principais intuições de João Paulo II foi a de colocar ao centro da JMJ a cruz de Cristo. Ele logo compreendeu que é Jesus Cristo que os jovens buscam, e o Senhor é encontrado sobretudo no coração do mistério pascal, ou seja, na sua morte e ressurreição. Não por acaso, na origem das Jornadas Mundiais da Juventude encontra-se o gesto fortemente simbólico da entrega aos jovens da Cruz do Jubileu do ano 1984, que o Papa acompanhou com estas tocantes palavras: “Caríssimos jovens, ao término do Ano Santo, confio-vos o sinal por excelência deste ano jubilar: a cruz de Cristo. Levai-a no mundo como sinal do amor do Senhor Jesus pela humanidade e anunciai a todos que só em Cristo, morto e ressuscitado, há salvação e redenção”.[1]

Quando no dia 3 de maio de 1500 foi celebrada a primeira missa no Brasil, uma grande cruz foi fincada na praia de Porto Seguro. O nome escolhido para a nova terra foi Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz. Em um outro 3 de maio, no ano 1957, a cruz também foi fincada, desta vez em Brasília. Diante desta, a partir da celebração da missa, teve início, novamente sob o sinal da cruz, o trabalho de construção desta cidade que haveria de se tornar a nova capital do Brasil.

Como dizia o Beato João Paulo II em sua visita a Brasília em 1980, a cruz de Porto Seguro e a cruz da capital brasileira são um sinal evidente que “muito mais do que na terra, a cruz foi plantada na história deste país, nos corações, na vida de seus habitantes. Por isso se diz que tanto no passado quanto no presente e no futuro do Brasil, a cruz de Cristo tem um profundo significado: (ela é) símbolo do sofrimento que leva à glória, da paixão que conduz à ressurreição. (…) A cruz do cristão é sempre uma cruz pascal. Neste sentido, cada vez que celebramos (…) o mistério da cruz, cresce em nós, à luz da fé, a certeza de que o tempo do sacrifício e da renúncia pode bem ser princípio de tempos novos de realização e de plenitude. Isto vale para as pessoas. Vale também para as coletividades. Pode valer para todo um povo, para um País”.[2]

Em um tempo no qual a Igreja latino-americana é convocada para uma grande missão continental, e a Igreja universal conclama todos os fiéis a “fazer-se ao largo” (Lc 5,4) e lançar-se com entusiasmo na tarefa da nova evangelização, o Santo Padre afirma serem as Jornadas Mundiais da Juventude uma “nova evangelização ao vivo”.[3]

Por ocasião das JMJs toda a Igreja se redescobre jovem, redescobre a alegria da fé. Como dizia recentemente o Santo Padre Bento XVI em seu encontro com a juventude no Líbano: (Vós jovens), “ocupais um lugar privilegiado no meu coração e na Igreja inteira, porque a Igreja é sempre jovem. A Igreja confia em vós; conta convosco. Sede jovens na Igreja. Sede jovens com a Igreja. A Igreja precisa do vosso entusiasmo e criatividade”.[4]

No seu famoso discurso de 22 de dezembro de 2011 à Cúria romana, falando sobre a JMJ de Madri, o Santo Padre dizia que em cada JMJ nasce “um novo modo de viver o ser homem, o ser cristão”. A nova evangelização de que tanto se fala ultimamente, não se trata somente e sobretudo de métodos, como se estes fossem uma fórmula mágica. Diz respeito sobretudo a um modo renovado de ser cristãos no mundo.

Em que consiste este novo modo? Trata-se de saber maravilhar-se diante da novidade da vida cristã que brota do Batismo. Encontra-se também na alegria e no entusiasmo da fé, da descoberta do Evangelho de Cristo como um grande dom de Deus, uma grande oportunidade que o Senhor nos oferece. Seguir Jesus não é jamais um jugo pesado. Vale a pena ser cristãos! Quanto os jovens das JMJs nos ensinam a este respeito!

Um bispo espanhol, após a JMJ de Santiago de Compostela em 1989, comentava que somos muitas vezes nós, bispos e sacerdotes, a sermos evangelizados pelos jovens durante as Jornadas Mundiais da Juventude. Nestas descobrimos o quanto Cristo e a Igreja ainda têm uma grande força de atração em relação à juventude. Assim, cada JMJ, em um certo sentido, é para nós bispos, e também para os sacerdotes uma grande interpelação: os jovens de hoje são muito abertos a Cristo e à mensagem do Evangelho! E esperam da Igreja, dos pastores, um empenho de evangelização mais forte, mais convicto, cheio de um novo ardor missionário. Cada JMJ recorda-nos que a pastoral juvenil é em certo sentido o motor de toda a pastoral da Igreja. Investir as melhores forças pastorais na pastoral juvenil quer dizer investir no hoje e no amanhã da Igreja.

A provocação que nos vem destes grandes encontros com a juventude é também a de uma autêntica conversão pastoral, de cuja necessidade o documento de Aparecida tão bem nos recorda. Há uma verdadeira revolução espiritual que brota das JMJs: nelas os jovens fazem uma nova experiência da catolicidade, da universalidade da Igreja. Tal experiência de comunhão gera um novo modo de ser cristãos, marcado pela descoberta da alegria maior, que está no dom de si. De fato, “o amor na sua pureza e na sua gratuidade é o melhor testemunho do Deus no qual cremos e que nos impulsiona a amar”[5]. As Jornadas Mundiais da Juventude têm ainda ajudado os jovens do mundo inteiro a descobrir a riqueza da adoração eucarística e do sacramento da reconciliação, entrando assim na certeza do amor “corpóreo” de Deus por nós e reconhecendo a necessidade contínua que temos da misericórdia divina. Por fim, como característica a ter presente na espiritualidade das JMJs, o Papa menciona a alegria que vem da fé, alegria que brota do mais profundo do coração, da certeza de sermos amados e acolhidos incondicionalmente por Deus.[6]

Um quarto de século após a JMJ realizada em Buenos Aires, este grande evento retorna ao continente Latinoamericano. A próxima Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em julho de 2013, será a segunda visita do Santo Padre Bento XVI ao Brasil. A primeira foi por ocasião da V Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano e do Caribe, em Aparecida 2007. Pouco tempo depois, comentando sua experiência no Brasil, ele afirmava: «Fui ao Brasil sabendo como se expandem as seitas e como a Igreja parece um pouco esclerotizada; mas quando cheguei vi que quase todos os dias no Brasil nasce uma nova comunidade religiosa, nasce um novo movimento, não crescem só seitas. Cresce a Igreja com novas realidades cheias de vitalidade, não a ponto de encher as estatísticas esta é uma esperança falsa, a estatística não é a nossa divindade mas crescem nos ânimos e geram a alegria da fé, geram a presença do Evangelho, geram assim também verdadeiro desenvolvimento do mundo e da sociedade».[7]

Após a Conferência de Aparecida, a Igreja Latinoamericana está vivendo um período de forte e novo despertar missionário, através do empenho na “Missão continental”. Uma belíssima novidade da Jornada Mundial da Juventude no Brasil será a Semana Missionária. Como dizia o Santo Padre em sua recente mensagem aos jovens por ocasião da XXVIII JMJ: “O empenho missionário é uma dimensão essencial da fé: não se é verdadeiramente crente se não se evangeliza. E o anúncio do Evangelho não pode senão ser a consequência da alegria de ter encontrado Cristo e de ter encontrado nele a rocha sobre a qual construir a própria existência” (n. 2). É esta a idéia contida no tema da próxima JMJ: “Ide e fazei discípulos entre as nações” (Mt 28,19). É preciso suscitar e despertar a paixão missionária de todos, particularmente dos jovens. No contexto do Ano da Fé a JMJ deve renovar em todos nós a certeza de que a fé cresce na medida em que a comunicamos ao próximo. Nunca esqueçamos que aprofundamento da fé e missão caminham juntos. O Sínodo sobre a Nova Evangelização só veio a confirmar tudo isto.

Como vemos, a JMJ do Rio de Janeiro propõe novamente, em uma maravilhosa síntese, todos os temas fundamentais que a Igreja tem vivido em nosso tempo! Que Nossa Senhora da Conceição Aparecida interceda pela frutuosidade pastoral deste magnífico evento que estamos preparando!


[1] João Paulo II, Aos jovens por ocasião da entrega da Cruz do Ano Santo da Redenção, 22 de abril de 1984 [nossa tradução].

[2] João Paulo II, Homilia durante a missa na Catedral de Brasília, 30 de junho de 1980.

[3] Bento XVI, Discurso do Santo Padre por ocasião da troca de votos natalícios com os Cardeais, a Cúria Romana e a Família pontifícia, 22 de dezembro de 2011.

[4] Bento XVI, Discurso do Santo Padre por ocasião do encontro com os jovens libaneses, 15 de setembro de 2012.

[5] Bento XVI, Deus caritas est, 31.

[6] Sobre a espiritualidade das Jmj’s cfr. Bento XVI, Discurso do Santo Padre por ocasião da troca de votos natalícios com os Cardeais, a Cúria Romana e a Família pontifícia, 22 de dezembro de 2011.

[7] Bento XVI, Encontro com o clero das dioceses de Belluno-Feltre e Treviso, 24 de julho de 2007.

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