Bakhita, a mulher que transformou a dor em amor

Publicado em 9 de março de 2016 Por Seja o primeiro a comentar!

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“Romper as pesadas correntes” e “a intolerável vergonha” de quem ainda hoje compra e vende seres humanos. Palavras usadas pelo Papa Francisco no Angelus ao recordar a memória litúrgica de Santa Josefina Bakhita, a escrava sudanesa que se tornou religiosa canossiana.

Quando estava com uma amiga nas proximidades de sua aldeia, situada na região de Darfur, no oeste do Sudão, dois homens surgiram improvisadamente entre os campos. Um deles pediu-lhe que fosse pegar um pacote que esquecera no bosque vizinho e disse à sua companheira que podia continuar o caminho, pois ela logo a alcançaria.

“Eu não duvidava de nada, obedeci imediatamente, como sempre fazia com a minha mãe”, contou ela. Ameaçando-a com um punhal, levaram-na à força, desaparecendo no meio da floresta. O medo fez com que a menina de 8 anos esquecesse de tudo, até mesmo os nomes de seus pais e o próprio.

Escrava

Os mercadores de escravos decidiram rebatizá-la como Bakhita, fortunata (“sortuda”). A menina sudanesa, que levava uma vida serena com seus pais, torna-se objeto de troca, abatida pela fome e pelo chicote, mercadoria humana que passa de mão em mão nos mercados de El Obeid e Kartum. Certa vez, quando a serviço de um general turco, é “tatuada” com golpes de uma lâmina, 114 cortes, e as feridas são cobertas com sal para que fiquem evidentes.

A luz

Bakhita sobrevive a tudo até que, um dia, um raio de luz ilumina o inferno em que vivia. Callisto Legnami, este é o nome do agente consular que a compra dos traficantes de Kartum. Assim, naquele dia, Bakhita-Fortunata veste pela primeira vez um vestido, entra em uma casa, a porta é fechada e 10 anos de brutalidade ficam para trás.

O oásis dura dois anos, quando então o funcionário italiano, que a trata com afeto, é obrigado a deixar o país pela revolução mahdista. Bakhita recordará daquele momento: “Me atrevi a pedir a ele para me levar junto para a Itália”. Callisto Legnami aceita e, em 1884, Bakhita desembarca na península, onde para a pequena ex-escrava, lhe aguarda um destino inimaginável. Torna-se a babá de Alice, a filha do casal Michieli, amigos de Legnami, que viviam em Zianigo, território de Mirano Veneto.

Liberdade

Em 1888, o casal que a hospeda deve partir para a África e por nove meses Bakhita e Alice são confiadas à Congregação das Filhas da Caridade de Santa Madalena de Canossa (Canossianas), de Veneza. Depois do corpo, Bakhita começa a revestir também a alma. Conhece Jesus, aprende o catecismo, liberta-se para sempre da sua condição de “objeto”. A senhora Michieli, então, retorna para a Itália para buscar sua filha Alice e a babá. Mas Bakhita se opõe: não a acompanhará à África. Após serem procurados pela mulher, o Patriarca de Veneza, Dom Domenico Agostini e o Procurador do Rei dizem à ela que “na Itália não se comercializa escravos”.

Irmã “Moreta”

Em 9 de janeiro de 1890 recebe do próprio Patriarca de Veneza o Batismo, o Crisma e a Primeira Comunhão, com o nome de Josefina Margarida Fortunata (“sortuda”). Em 1893, entra no noviciado das Canossianas, três anos mais tarde professa os votos e por 45 anos será cozinheira, sacristã e sobretudo porteira do Convento de Schio, onde aprenderá a conhecer as pessoas e as pessoas, por sua vez, a apreciarem o seu sorriso, a bondade e a fé daquela “moréta”, “morreta”. E as crianças querem conhecer a “irmã de chocolate”.

“Beijo as mãos dos negreiros”

Quando Josefina Bakhita faleceu aos 78 anos, em 8 de fevereiro de 1947, devido a uma pneumonia, o luto toma conta de toda a cidade de Schio. Realmente “sortuda” na sua vida, ela mesmo dirá: “Se eu encontrasse de novo aqueles negreiros que me sequestraram e também aqueles que me torturaram, me ajoelharia para beijar as suas mãos, porque, se não tivesse acontecido isto, eu não seria agora cristã e religiosa”.

Em 1969 o corpo incorrupto de Bakhita recebeu sepultura definitiva sob o altar da Igreja do Convento em Schio. Foi beatificada em 1992 e canonizada em Roma, pelo Papa João Paulo II, em outubro de 2000.

Por Rádio Vaticano

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