[Artigo] A prática da escuta e a evangelização da juventude

[Artigo] A prática da escuta e a evangelização da juventude

Pe. Antonio Ramos do Prado
Assessor Externo da Comissão da Juventude da CNBB

 

No processo comunicacional, o homem desenvolveu no decorrer de sua história, diversos meios para transmitir informações em todos os âmbitos da existência humana. Desde as suas manifestações visuais e verbais no “tempos das cavernas”, até os mais recentes meios de comunicação digitais, como as redes sociais e os aparelhos de celulares smartphones com sua multiplicidade de aplicativos.

No contexto da pós-modernidade, somos submetidos a uma complexa, densa e tensa quantidade de informações de modo ininterrupto. Nossa necessidade pessoal e coletiva de estarmos disponíveis e/ou conectados no máximo de tempo possível, faz com que não processemos de modo adequado e eficaz, as infindáveis mensagens que recebemos. O que origina em compreensões literais, subjetivistas e/ou alienações em nossos relacionamentos intra e interpessoais.

Conforme nos indica Zúniga (2015): “O que exige cuidado é quando algumas pessoas se perdem nesse mar de informações e possibilidades. Elas se sentem tão seduzidas por esses recursos, que dedicam a eles muito mais tempo que deveriam. Acabam vivendo em função da tecnologia, e não ao contrário, como deveria ser.”

Na metade do século XX, o psicólogo norte-americano Carl Rogers (1987) aprofundou um elemento de suma importância em nossa comunicação: a escuta. Que não se refere apenas a faculdade de aparelho auditivo e seu consequente processamento neurológico e sensorial. É o ouvir de forma atenta, empática e acolhedora.

“Creio que sei por que me é gratificante ouvir alguém. Quando consigo realmente ouvir alguém, isso me coloca em contato com ele, isso enriquece a minha vida. (…) Em algumas ocasiões, ouço, por trás de uma mensagem que superficialmente parece pouco importante, um grito humano profundo, desconhecido e enterrado muito abaixo da superfície da pessoa.” (pg 7-8)

O uso excessivo dos recursos tecnológicos atuais, podem ocasionar afastamento ou alienação a tudo que está ao nosso redor e originar proximidade afetiva ao que está geograficamente distante. Segundo Mano (2014), é de grande valia considerar se o domínio das pessoas ocorre sobre seus aparelhos celulares ou se o processo inverso é o que ocorre com maior frequência. E perceber como as consequências dos usos destes equipamentos repercutem nas relações pessoais, na família, com os amigos, nas instituições educacionais e nos ambientes profissionais. Até mesmo o desgaste de tal uso frenético pode desencadear.

Em um episódio de um dos bloqueios judiciais recentes do aplicativo Whatsapp e as calorosas re/decepções nas redes sociais e em outros meios de comunicação por meio de parcela significativa de seus usuários, Manuchakian (2016) pontuou que “Parece que estar conectado da mesma forma que os aplicativos pré-existentes gera mais conforto, como se o diferente incomodasse e fosse causa de ansiedade. E não ter esse serviço, talvez fizesse com que as pessoas percebessem sua dificuldade em estar presente fisicamente e mentalmente com os outros.”Tal situação ilustra bem nossa gradativa dependência tecnológica.

Em entrevista a Deutsche Welle (2015), o professor assistente Alexander Markowetz da Universidade de Bonn, afirma que devido ao uso irrefreável dos aparelhos smartphones, há até mesmo uma postura ortopédica incorreta que pode acarretar danos futuros ainda não totalmente mensurados. Além de haver sobretudo, uma reduzida quantidade de experiências offline. Sobretudo aos jovens, que em um breve momento de desconexão, tem por desabado seu mundo interior, por não querer perder nada que acontece.

A agência internacional Agence-Presse France (2013), publicou que na Coréia do Sul, país criador da empresa Samsung de telefonia, foi constatado o índice de 80% de usuários de smartphones na faixa etária de 12 a 19 anos e dentre estes, 40% o utilizam por mais de três horas diárias em diversos aplicativos de comunicações e redes sociais. O que tem preocupado pais e especialistas de educação locais.

Conforme nos apontam tais pesquisas, o perfil predominante de usuários de tais ferramentas são pertencentes aos jovens nativos de tal “tecnolatria”. E por não sabermos lidar com sua constante conexão virtual e desconexão física, os criticamos e/ou condenamos em tais posturas. Não buscamos aprofundar as causas de sua aparente “fuga do mundo” e sua submissão a uma nova patologia recentemente denominada “nomofobia”, ou seja, o “medo de ficar sem o celular”, segundo Nabuco (2015). Em entrevista concedida ao jornal Estado de São Paulo (2011), o psicólogo aponta que a geração nativa digital foi formada educacionalmente para estar sempre conectada e que possui características peculiares que as diferenciam das gerações que a precederam. Notando que, mesmo aparentando serem tecnólatras imutáveis, o que os jovens nos dizem de forma verbal ou não, nos desafia e nos interpela a capacitar a nossa escuta, para poder melhor acolhê-los e compreendê-los no que está por detrás de sua intensa busca de realização plena. E como pode-se lidar com isso. O autor supracitado (2013) também afirma que “Fazer o possível para que os filhos realizem atividades fora do computador, celular ou tablet, é fundamental para o desenvolvimento pessoal e cognitivo dos pequenos”.

As formas e consequências do uso frenético do aplicativo Pokémon Go, ainda nos causam uma inquietação quase imediata. A professora e também psicóloga Rosa Maria Farah (2016) enfatiza que assim como surgia um novo recurso tecnológico em diversos momentos sócio-históricos da humanidade, há de se esperar um tempo de adaptação próprio diante de tal aplicativo. Contudo, os pedagogos, coordenadores de escolas e responsáveis legais pelos adolescentes e jovens, devem se atentar acerca de comportamentos que privem tais grupos de se relacionarem de “modo positivo com mais pessoas, melhore sua qualidade de vida ou possibilite conhecer novidades”.

No processo de evangelização das juventudes e suas mais diversas expressões, pode-se cogitar aos que os assessoram, uma formação sólida, clara e eficaz acerca da escuta qualificada na perspectiva de Carl Rogers. Diante de um irrefreável barulho interno e externo em um processo de retroalimentação que nos cerca nos ambientes eclesiais e sociais, caberia a estes agentes de evangelização das juventudes o uso de tal (urgente) ferramenta. Este recurso técnico-psicológico pode contribuir também na acolhida de nossas juventudes e suas múltiplas inquietudes demonstradas das mais diversas formas em nossos tempos.

Poderia-se propor em uma etapa posterior, exercícios nas reuniões com estes jovens que também favorecesse a prática do silêncio. A Lectio Divina pode ser um precioso instrumento para tal atividade. Esta modalidade de oração pessoal e comunitária contribuiria simultaneamente na preparação mais qualificada da escuta atenta da Palavra de Deus também nas celebrações litúrgicas. Onde encontramos diversos desafios no que tange a participação destes caros fieis de modo pleno, consciente e ativo, conforme orienta o artigo 14 da Constituição Sacrossanctum Concilium do Concílio Ecumênico Vaticano II. (BECKHAUSER, 2012)

 

Referências bibliográficas:

BECKHAUSER, Alberto. Sacrossanctum Concilium: texto e comentário. 1 edição. Pg. 34. São Paulo, S.P. Paulinas, 2012.
FARAH, Rosa Maria. As três realidades do Pokémon Go. Agosto de 2016. PUC-SP: Jornal mensal da PUC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pg. 12. Disponível em https://issuu.com/pucspemnoticias/docs/jornal_ed87 .Acesso em 12 de outubro de 2016.

FRANCE, Agence-Presse. Coreia do Sul quer combater o vício dos jovens por seus smartphones. Julho de 2013. Disponível em http://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2013/06/25/noticias-saude,194377/coreia-do-sul-quer-combater-o-vicio-dos-jovens-por-seus-smartphones.shtml. Acesso em 29 de novembro de 2016.

MANO, Ana Luiza. Vício em smartphones: como mudar nossa relação com eles. Agosto de 2014. Núcleo de Pesquisas da Psicologia da Informática da PUC – Pontifícia Universidade Católica – São Paulo, S.P. Disponível em http://www.pucsp.br/nppi/citacoes.html. Acesso em 09 de janeiro de 2017.

MANUCHAKIAN, Fabiane. Somos reféns do Whatsapp?. Janeiro de 2016. Núcleo de Pesquisas da Psicologia da Informática da PUC – Pontifícia Universidade Católica – São Paulo, S.P. Disponível em http://www.pucsp.br/nppi/coluna_eletronica.html. Acesso em 29 de dezembro de 2016.

NABUCO, Cristiano. Celulares, filhos e sua saúde: o que você deveria saber, mas desconhece. Janeiro de 2015. Disponível em http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2015/01/14/celulares-filhos-e-sua-saude-o-que-voce-deveria-saber-mas-desconhece/. Acesso em 12 de novembro de 2016.

NABUCO, Cristiano. O que a vida digital está fazendo com nossos filhos. Outubro de 2013. http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2013/10/30/o-que-a-vida-digital-esta-fazendo-com-nossos-filhos/sponível em Acesso em 02 de novembro de 2016.

ROGERS, Carl. Um jeito de ser. Editora Pedagógica e Universitária Lida. São Paulo. 1987. Pgs. 7 – 8.
TOLEDO, Karina. Uso excessivo de jogos eletrônicos pela geração digital preocupa pais. Fevereiro de 2011. Jornal O Estado de São Paulo. Caderno Vida. Pg. A24. Disponível em http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/353978/noticia.htm?sequence=1. Acesso em 18 de dezembro de 2016.

WELLE, Deutsche. O vício em smartphones está criando uma geração de crianças doentes e infelizes. Diário do Centro do Mundo. Outubro de 2015. Disponível em http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-vicio-em-smartphones-esta-criando-uma-geracao-de-criancas-doentes-e-infelizes/. Acesso em 12 de dezembro de 2016.

ZÚNIGA, Katty. Consciência do uso que fazemos evita a nossa dependência da tecnologia. Outubro de 2015. Núcleo de Pesquisas da Psicologia da Informática da PUC – Pontifícia Universidade Católica – São Paulo, S.P. Disponível em http://www.pucsp.br/nppi/coluna_eletronica.html. Acesso em 11 de janeiro de 2017.

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