Acendendo estrelas: A juventude samaritana como epifania em meio à pandemia.

Publicado em 5 de maio de 2020 Por Seja o primeiro a comentar!

Estamos vivendo um tempo muito particular para humanidade. De modo geral todos nos sentimos envolvidos; se não é na causa desta pandemia, estamos envolvidos nas conseqüências, nas lágrimas de muitos e na esperança de todos! As juventudes também padecem da dor, mas estão se empenhando na consolação e no cuidado, a exemplo do Bom Samarita-no.

Tocamos com nossas mãos a fragilidade de nossa existência e nos comovemos com tanta dor e sofrimentos espalhados sobre a terra por causa do novo coronavírus covid-19. São muitos os flagelos que ainda assolam as pessoas, particularmente os mais pobres e vulneráveis socialmente (fome, desemprego, sem moradia, nômades e refugiados etc).

Diante deste quadro de flagelo e atribulação nos vem em mente um memorável texto do Concílio Vaticano II na Gaudium et Spes (1): “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração…a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história”. Toda realidade humana torna-se uma realidade eclesial e encontra ressonância em seu coração de mãe e mestra.

Isto ficou claramente demonstrado e de modo tão explícito naquela expressiva manifestação de fé, compaixão, comunhão e solidariedade que o Papa Francisco, por iniciativa própria, realizou no início da noite do dia 27 de março deste ano na Praça de São Pedro. Es-tando praticamente sozinho em meio à Praça deserta ele conseguiu atingir a todos, indistintamente, com seu gesto, palavras, orações, silêncio e bênção. Que sinal profético, que iniciativa divina, que comunhão com a humanidade sofredora neste momento de pandemia. Mais uma vez o Papa Francisco demonstrou que a “Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história”.

Créditos: Vatican News

Somos pessoas de fé e de esperança, mas também de compromisso com um amanhã melhor e mais fraterno. Olhando para trás vemos como erramos (como humanidade) e como não devemos persistir no erro. Não seremos os mesmo jamais! As juventudes são chamadas a serem protagonistas deste mundo novo! Lemos nesta triste realidade que nos toca tão de perto e que faz sangrar o coração de tantas famílias e de tantos jovens mundo afora, o apelo de Deus para sermos novas criaturas, para edificarmos uma nova humanidade, fraterna e solidária.

Estamos no Tempo Pascal. Vivemos uma Quaresma singular na história e uma Semana Santa sem precedentes. As celebrações do Tríduo Pascal nos fez tocar com as mãos, seja a paixão do Senhor, que nos comove, como também a sua Ressurreição, que nos alenta e revigora. Se nas celebrações não havia presencialmente o povo, pudemos experimentar a co-munhão eclesial que a fé nos proporciona. Não tínhamos presença física, mas superabundou a presença espiritual e afetiva. Somos projetados pela fé ao encontro do Senhor Ressuscita-do.

Na Exortação Pós Sinodal Cristo Vive, o Papa Francisco lançou uma proposta e, ao mesmo tempo, um desafio à juventude: “O Senhor chama-nos a acender estrelas na noite doutros jovens” (Christus Vivit, 33). Eis uma missão particular que nossa juventude é chama-da a abraçar. No mesmo parágrafo o Papa continua: o Senhor “convida-nos a olhar os verdadeiros astros, ou seja, aqueles sinais tão variados que Ele nos dá para não ficarmos parados, mas imitarmos o semeador que observava as estrelas para poder lavrar o campo. Deus acende estrelas para nós, a fim de podermos continuar a caminhar”; devemos ver essa situação particular pelo qual passa a humanidade como um daqueles “sinais tão variados que Ele nos dá” para avançarmos na missão, no testemunho.

A Pandemia não nasceu de Deus e de Sua vontade, mas nos ajuda compreendê-la mais profundamente e a responder com mais generosidade ao Seu apelo para sermos novas criaturas, mais conforme ao Seu coração, pois como diz o apóstolo Paulo, devemos ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo (cfr. Fl 2,5); este desejo nos torna real e “intimamente ligados ao gênero humano e à sua história” (GS).

“Acender estrelas”, que belíssima intuição do Papa Francisco. Evoca todos à esperança e a um olhar positivo sobre a humanidade. É o grande apelo às juventudes e a todas as pessoas de boa vontade.

A fé cristã não é fatalista, cristalizada e enclausurada em si mesma. O Espírito nos conduz e ilumina nossos passos, nos faz avançar para as águas profundas e a lançar as redes (cfr. Lc 5,4). Se o mal semeia o joio e ofusca a luz e a noite esconde sua claridade, nós semeamos o trigo novo e com persistência acendemos estrelas (cfr. Mt 13,24-30). “Deus acende estrelas para nós, a fim de podermos continuar a caminhar”!

Jovens da Diocese de Valença/RJ distribuem máscaras gratuitamente para a população.

Como expressão da intuição de Francisco “para não ficarmos parados”, a Pastoral Juvenil foi adjetiva de Samaritana. Isso não é algo novo, mas é expressado de modo mais compreensível e traduz o que nossas juventudes vêm realizando de modo criativo e exemplar nesse nosso imenso Brasil. A oração, a caridade e a solidariedade para com idosos, enfermos, pobres e pessoas em situação de vulnerabilidade, entre tantas outras iniciativas, merecem reconhecimento. A Pastoral Juvenil é Samaritana, pois se inspirou no coração do Bom Samaritano que “viu, sentiu compaixão e cuidou” (cfr. Lc 10,33-34); a Pastoral Juvenil é Samaritana, pois bebeu da fonte de Água Viva que é Jesus (Jo 4,1-29); a Pastoral Juvenil é Samaritana, pois é próprio de todo cristão e cristã viver a caridade como expressão da natureza íntima da Igreja (cfr. DCE, 25), ciente de que a “fé opera pela caridade” (Gl 5,6) e será o critério pelo qual seremos julgados pela misericórdia do Senhor, pois “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (MT 25,40).

De modo profético e exemplar as juventudes estão expressando em suas vidas e missão o serviço e a caridade transformadora que o Papa Francisco deixou eternizado na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho): “Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização…a esperança…a comunidade…o Evangelho…o ideal do amor fraterno…a força missionária” (EG 83.86.92.97.101.109); não deixemos que nos roubem a dimensão Samaritana de nossa fé e procuremos promove-la sempre mais no meio de nossas juventudes. Este adjetivo, Samaritana, não é um adereço ou adorno transitório da Pastoral Juvenil, mas definitivamente passou a ser sua alma!

No meio desta pandemia as juventudes se revelaram como epifania de Deus e de Seu modo de amar, de ver, de sentir compaixão de cuidar! Que estas sementes lançadas possam dar frutos cem por um, pois caíram na terra boa do coração juvenil (cfr. Mt 13,8).

por Pe. Alcindo Martins Milena • Diocese de Duque de Caxias – RJ – Leste 1

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