A primeira Missa no Brasil e as nossas Missas!

Publicado em 26 de abril de 2020 Por Seja o primeiro a comentar!

Pintura de Victor Meirelles (1861).

No dia 26 de abril de 1500, domingo da oitava de Páscoa, celebrou-se a primeira Missa em solo brasileiro. Em sua carta ao rei Dom Manuel, o escrivão Pero Vaz de Caminha descreveu a celebração feita em um “altar mui bem arranjado” e que, segundo observou, “foi ouvida por todos com muito prazer e devoção”. O Ato religioso ocorreu na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia.

O presidente da celebração foi o Frei Henrique de Coimbra e os concelebrantes foram alguns franciscanos e sacerdotes seculares que integravam a frota. Cerca de 200 índios participaram da Missa, o próprio Caminha e Pedro Álvares Cabral, chefe da frota. Ao final da Missa, o presidente da Celebração fez um grande sermão, focando a chegada dos portugueses e a terra recém-descoberta.

Uma ação salvífica na história da Igreja!

A Eucaristia “é a fonte e o ápice da vida eclesial” (CIC 1324 a 1327) e de toda a vida cristã (LG 11); é a presença salvífica de Cristo morto e ressuscitado, no meio do seu povo; é o sacramento da união dos seres humanos com Deus e entre si. Jesus Cristo, com os gestos da última Ceia e sobretudo com as palavras “Fazei isto em memória de Mim”, não entendia uma simples refeição fraterna, mas uma liturgia, verdadeiro culto de adoração ao Pai “em espírito e verdade” (Jo 4,24).

A Eucaristia “é a fonte e o ápice da vida eclesial”!

A palavra Eucaristia é de origem grega: εὐχαριστία, que significa “ação de graças”. Mas também é “gratuidade”, no latim “gratia”. É Memorial (Lc 22,19), Sacrifício (Lc 22,19-20), remissão dos pecados (Mt 26,28), Ceia (Lc 22,15), alimento e bebida (Mt 26,26-27), Sacramento escatológico (1Cor 11,26)… Tudo isso implica muito mais que devoção eucarística, pois quem participa da mesa da comunhão torna-se um com Jesus e colaborador no projeto de Deus.

Dessa forma, contar a história do Brasil, a partir de uma celebração eucarística é extremamente jubiloso e perigoso. Jubiloso, por constatar que o ponto de partida da nossa história foram a cruz e o altar, referências do amor salvífico de Deus pela humanidade. Perigoso, porque é um ritual de aliança, onde comungar é atitude profética, que exige cuidado e defesa da vida, numa abertura responsável para com o planeta e as pessoas, “especialmente com os mais pobres, educando-nos a passar da Carne de Cristo à carne dos irmãos” (Papa Francisco). Nesse sentido não há espaço para o individualismo, o comodismo e a indiferença.

Uma necessidade no momento atual!

A pandemia do novo coronavírus, obrigou os católicos a se afastarem das celebrações eucarísticas presenciais. Os Bispos, em unidade e obediência ao Papa Francisco e pelo zelo e cuidado com o rebanho, decidiram há algumas semanas, fechar as Igrejas, em meio a protestos de alguns e apoio da grande maioria dos fiéis.

Celebração da Santa Missa na Reitoria do Sagrado Coração de Jesus, em Ponta Grossa. (Foto: Reitoria do Sagrado Coração de Jesus, Diocese de Ponta Grossa).

É importante lembrar que a Igreja-templo, lugar do culto, casa de oração (Mc 11,17) se fechou, mas jamais se fechará a Igreja povo de Deus, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo, comunidade de batizados, discipulado fraterno universal…, chamada a ser sinal da presença do Deus vivo e atuante na história, em todos os lugares e situações, como este, de pandemia e isolamento social.

A reflexão acima, sobre a Eucaristia, atesta que nada se compara à presença física do fiel nas celebrações eucarísticas, nada substitui o “tomai e comei” e o “tomai e bebei”. No entanto, se tratando de um momento único e distinto na história da Igreja, precisamos buscar caminhos para alimentar a fé, a esperança, a alegria pascal e a prática da caridade. As Missas e outras atividades religiosas que estão sendo transmitidas pelos meios de comunicação, têm sido uma grande contribuição na edificação espiritual e nos gestos humanitários dos cristãos e solidifica a Igreja doméstica (família), tão fragilizada na sociedade atual.

O Papa Francisco tem lembrado que esse “jeito de evangelizar” é para nos ajudar a atravessar o túnel e não para permanecermos nele, o que significa que estamos num período transitório, onde os meios justificam os fins, em vista de uma retomada com maior entusiasmo quando a pandemia passar. Por isso, o Papa tem incentivado também, nas Missas não presenciais, a “comunhão espiritual” já valorizada no Concílio de Trento (1546 a 1563), como um meio eficaz para fortalecer a comunhão com Deus, com a Igreja e com o mundo.

Celebremos, com alegria, os 520 anos da primeira Missa no Brasil mesmo distantes fisicamente dos altares e deixemo-nos contagiar pela fé e ousadia missionária daqueles que iniciaram o Cristianismo na terra de Santa Cruz; pois um protagonismo ardoroso será necessário na pós pandemia, e os homens e as mulheres, verdadeiramente eucarísticos, é que contribuirão para uma sociedade nova.

Dom Amilton Manoel da Silva, CP.
Bispo Auxiliar de Curitiba – PR;
Membro da Comissão Espiscopal
Pastoral para a Juventude, da CNBB.

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