É possível ser Santo?

Publicado em 16 de novembro de 2016 Por Seja o primeiro a comentar!

Com frequência a Igreja oferece aos fiéis e a todo o mundo a figura do santo! Homens e mulheres de idades diversas e diferentes estados de vida viveram com heroísmo o Evangelho e se tornaram pontos de referência, como sinais privilegiados para suas respectivas épocas e para as gerações que se seguem. Seus feitos, suas palavras e seus nomes permanecem como imagens gravadas com fogo na história da humanidade. Sabemos que mesmo nações de tradição diferente do cristianismo se orgulham dos santos e santas que nelas deixaram suas marcas, especialmente os rastros da caridade vivida, já que um dos sinais de santidade é justamente o amor universal e desprendido, sem preconceitos ou discriminações.

Basta recordar a recente canonização da Santa Madre Teresa de Calcutá. E o nosso tempo tem sido rico de santidade, como homens e mulheres conhecidos diretamente pela nossa geração. São João Paulo II percorreu o mundo, visitou nosso país, comeu à nossa mesa, abraçou nossas crianças! E é santo! Ele mesmo, aqui no Brasil, afirmou categoricamente que nosso país precisa de muitos santos. Daí a pergunta, numa época de propaganda da maldade e da impureza, de banalização da verdade, corrupção dos costumes e tantas outras mazelas, é possível ser santo? Parece que a resposta deve ser dada por nós, cada um no confronto com os ideais assumidos em sua própria história.

Há santidade nas crianças. Deus nos fez para a inocência e não para a maldade. As orações que brotam singelas dos lábios dos pequeninos, preferidos de Jesus, a abertura com que se dispõem a conversar com o Senhor, a espontaneidade de seus sentimentos e a liberdade com que se colocam diante dos adultos, tudo indica que nos pequeninos, com os quais precisamos ser parecidos, se queremos entrar no Reino de Deus, é nada menos do que o projeto de Deus para todos, seja qual for a sua idade. Francisco e Jacinta, pastorinhos videntes de Nossa Senhora de Fátima, são reconhecidos como “confessores da fé”

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A santidade resplandece nos jovens. Um dos novos santos canonizados no dia 16 de outubro de 2016 é o jovem José Sánchez del Río, mexicano (1913-1928), martirizado aos 14 anos durante a perseguição religiosa no México. No Brasil, Guido Schäffer, brasileiro, carioca, dizendo que “todas as nossas ações devem visar o amor de Deus”, foi médico, surfista e filho muito dedicado a Deus. Ao oferecer sua medicina aos pobres assistidos pelas Missionárias da Caridade de Madre Teresa, e após a leitura do livro “O Irmão de Assis”, de Frei Ignacio Larrañaga, decidiu largar tudo para seguir o forte chamado ao sacerdócio. Sua vida na Igreja amadureceu na Renovação Carismática Católica, no uso dos dons e carismas do Espírito Santo, na vida intensa de oração, nas devoções marianas e depois num caminho para o sacerdócio. Seu processo de beatificação está em andamento. Deus o “pescou” surfando, aos trinta e quatro anos, em 2009, no último ano de Seminário.

A Santidade acontece na família, como se manifesta na canonização dos pais de Santa Teresinha, Luís Martin e Zélia Guérin. O Papa Francisco afirmou que “os novos santos viveram o serviço cristão na família, construindo dia após dia um ambiente cheio de fé e amor, e, neste clima, germinaram as vocações das filhas, nomeadamente a de Santa Teresinha do Menino Jesus”. Luiz era relojoeiro e Zélia bordadeira. Tiveram nove filhos, quatro falecidos ainda na infância e cinco filhas seguiram a vida religiosa! Ou lembremos Santa Gianna Beretta Molla, médica e mãe de família, cujo milagre para a canonização beneficiou uma brasileira.

Santidade não depende de classe social. No Brasil, recentemente foi beatificada “Nhá Chica”, analfabeta, dedicada a Deus na vida de oração e à caridade, chamada em Baependi, Minas Gerais, de “Mãe dos Pobres”. Guardava especial devoção às “Três horas da Agonia”, prática tão difundida entre nós, belenenses. Sua vida mostrou que a santidade não é privilégio, mas mandamento do Senhor Jesus: “Sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 7, 48).

Mas como percorrer esta estrada? Para São João Paulo II, “se o Batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: ‘Queres receber o Batismo’? significa ao mesmo tempo pedir-lhe: ‘Queres fazer-te santo?’. Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha” (Novo Millenio Ineunte 31).

Santidade é o caminho normal a ser percorrido pelo cristão. Escolher o seguimento de Jesus Cristo, acolher sua palavra como Palavra de Vida Eterna, optar pela fidelidade aos mandamentos, experimentar a graça do perdão e o banho da misericórdia de Deus. Sim, o santo não está pronto e acabado, mas vive o processo a santificação, cujo autor principal é o próprio Deus. De fato, se nos deixamos conduzir, o Espírito Santo conduz, silenciosamente, mas com força, os rumos de nossa existência. Vivendo bem cada momento presente, pois a cada dia basta o seu cuidado (Cf. Mt 6, 34), passo a passo é possível caminhar na santidade.

Santidade significa não se acomodar com o espírito do mundo, que conduz à volta sobre si e o bloqueio das boas inspirações. Trata-se de sair de nosso egoísmo, para encontrar os meios adequados para servir e não ser servidos, como o Senhor, em quem acreditamos. Santidade é exercício de criatividade. Os homens e mulheres que se santificaram abrem uma imensa galeria de possibilidades, provocando em nós a fidelidade aos muitos dons que nos foram concedidos, para multiplicar os talentos e exercitá-los para a glória de Deus e para o bem da humanidade. Basta olhar no espelho da Palavra de Deus para descobrir.

Santidade quer dizer usar os meios postos à nossa disposição pela Igreja, São João Paulo II (Novo Millenio Ineunte 30-41) propõe os seguintes passos: oração, participação na Eucaristia Dominical, Sacramento da Reconciliação, acreditar no primado da graça de Deus, escutar a Palavra de Deus, acolher o exemplo luminoso dos santos e dos mártires. Cabe a nós experimentar estes passos e será dada a resposta à pergunta!

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Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará

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