Os jovens, os idosos e a profecia de Joel

Foto: Sujata Setia

Em 26 de julho de sete anos atrás, durante a JMJ no Brasil, o Papa Francisco lançou um apelo para fortalecer o diálogo entre as gerações. Um tema que assumiu e desenvolveu durante seu pontificado e que, em nosso tempo marcado pela pandemia, torna-se fundamental para olhar o futuro com esperança.

“Como é importante o encontro e o diálogo entre as gerações, principalmente dentro da família”. Era o dia 26 de julho de 2013, o Papa Francisco da varanda do Arcebispado do Rio de Janeiro saudava os presentes. Palavras ouvidas antes da oração do Angelus, por milhares de jovens de todo o mundo que tinham ido ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, a primeira viagem apostólica internacional do Papa eleito em março daquele ano. Era o dia em que a Igreja celebra os Santos Joaquim e Ana, os pais da Virgem Maria, os avós de Jesus. Francisco aproveitou a oportunidade para enfatizar – retomando o Documento de Aparecida no qual ele havia trabalhado como cardeal – que “as crianças e os idosos constroem o futuro dos povos; as crianças porque levarão por adiante a história, os anciãos porque transmitem a experiência e a sabedoria de suas vidas”.

Vítimas da cultura do descarte

Jovens e idosos, avós e netos. Este binômio torna-se uma das constantes do Pontificado através de gestos, discursos, audiências e “fora de programa”, especialmente em viagens. São eles, os jovens e os idosos, observa amargamente Francisco, que muitas vezes são as primeiras vítimas da “cultura do descarte”. Mas são sempre eles que juntos, e somente se juntos, podem se lançar em caminhos e encontrar espaço para um futuro melhor. “Se os jovens são chamados a abrir novas portas”, observou o Papa na missa aos consagrados em 2 de fevereiro de 2018, “os idosos têm as chaves”, “não há futuro sem este encontro entre os idosos e jovens; não há crescimento sem raízes, e não há floração sem novos rebentos. Jamais profecia sem memória, jamais memória sem profecia; mas que sempre se encontrem!”.

Convergência nos sonhos

Para Francisco, o ponto de encontro entre jovens e anciãos é o dos sonhos. Em alguns aspectos, parece uma convergência surpreendente, quase improvável. No entanto, como a experiência da pandemia nos mostrou, foi precisamente o sonho, a visão do amanhã, que manteve e mantém unidos os avós e netos, que foram repentinamente separados, acrescentando um peso adicional à obrigação do isolamento. De resto, este enfoque sobre a dimensão do sonho foi sempre muito meditado pelo Papa e tem profundas raízes bíblicas. De fato, Francisco ama recordar o que o profeta Joel nos ensina quando diz: “creio ser a profecia de nosso tempo: ‘Vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões’ (3, 1) e profetizarão”.

A empatia

Quem, senão os jovens, pergunta o Papa, pode tomar os sonhos dos idosos e levá-los adiante? Significativamente, durante o Sínodo dedicado aos jovens celebrado em outubro de 2018, quis que houvesse um evento especial sobre o diálogo entre as gerações, o encontro “A Sabedoria do Tempo” no Instituto Patrístico Augustinianum. Na ocasião, respondendo às perguntas dos jovens e idosos sobre questões atuais para a Igreja e para o mundo, Francisco exortou-os a “defender os sonhos como se defendem os filhos”, observando que “os fechamentos não conhecem os horizontes, os sonhos sim!”. O próprio Papa, um homem idoso, confiou aos jovens uma grande responsabilidade. Dirigindo-se idealmente a cada um dos jovens disse: “Tu não podes carregar sobre ti todos os idosos, mas os sonhos deles sim, levando-os em frente, leva-os, que te fará bem”. No mesmo encontro destacou a importância da empatia, algo que hoje, à luz da dramática experiência da pandemia, parece ainda mais necessária. “Não se pode – advertiu ele – compartilhar uma conversa com um jovem sem empatia”. Mas onde podemos encontrar hoje esse recurso tão necessário para ir adiante? Na proximidade, é a resposta do Papa. Um bem precioso, como experimentamos nestes meses quando, esta dimensão fundamental da existência foi subitamente “suspensa” por causa do vírus. “A proximidade faz milagres”, é a convicção do Papa, “a proximidade com os que sofrem”, “a proximidade aos problemas e a proximidade entre jovens e idosos”. Uma proximidade que, nutrindo a “cultura da esperança”, nos imuniza contra o vírus da divisão e da desconfiança.

Cumplicidade no sorriso

O Papa volta a falar sobre esta ligação em uma de suas últimas viagens apostólicas, à viagem à Romênia em junho do ano passado. É aqui que Francisco fica comovido por uma imagem, enquanto estava em Iaşi para o encontro com os jovens e as famílias do país. Foi ele mesmo quem confidenciou a alegria de um encontro inesperado, o encontro com uma senhora idosa. “Carregava nos braços”, disse o Papa, “seu netinho, mais ou menos dois meses, não mais”. Quando passei, mostrou-o para mim. Sorria e sorrindo com um sorriso de cumplicidade, dizia-me: ‘Olhe, agora eu posso sonhar!’”. Um encontro de olhares de poucos segundos que emocionou o Papa, sempre atento colher no próximo uma centelha que, indo além dos limites do momento, torna-se um presente e uma mensagem para todos. “Os avós – comenta – sonham quando seus netos vão em frente, e os netos têm coragem quando se enraízam em seus avós”.

Raízes e sonhos

Raízes e sonhos. Não pode haver um sem o outro, porque um é para o outro. E isto certamente é verdade hoje mais do que no passado, porque é preciso de uma “visão geral” que não deixe ninguém excluído. Francesco destaca isso em uma entrevista às revistas inglesas Tablet e Commonweal no momento mais sombrio da pandemia na Europa. Para o Papa, que se detém no sentido do que estamos vivendo neste dramático 2020, a tensão entre idosos e jovens “deve sempre se resolver no encontro”. O jovem, reitera, “é broto, folhagem, mas precisa da raiz; caso contrário, não pode dar frutos”. O idoso é como a raiz”. Mais uma vez ele recorda da “profecia de Joel”. Aos idosos de hoje, assustados por um vírus que acaba com a vida e sufoca a esperança, Francisco pede mais um gesto de coragem. Talvez o mais difícil: a coragem de sonhar. “Olhem para o outro lado – exorta o Pontífice que acredita na ‘sabedoria do tempo’ – lembrem-se de seus netos e não parem de sonhar. Isto é o que Deus pede: sonhar”. Com força o Papa nos diz: “O que estamos vivendo, em meio a medos e sofrimentos, é o momento propício para encontrar a coragem de uma nova imaginação do possível, com o realismo que só o Evangelho pode nos oferecer”. Este é o momento em que a “profecia de Joel” pode se tornar realidade.

Por Alessandro Gisotti, Vatican News

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