Memórias: entrevista especial com Pe. Hilário Dick sobre o documento da CNBB “Evangelização da Juventude”

Publicado em 4 de março de 2020 Por Seja o primeiro a comentar!

Neste dia (03) em que vivemos a Páscoa do querido Pe. Hilário Dick, que muito contribuiu com a evangelização das juventudes em nosso país, fazemos memória da entrevista especial por ocasião da aprovação (Junho 2007) do documento que trata da evangelização da juventude (Doc.85 CNBB).

Confira a entrevista:

Jornalismo – Quais são as novidades do documento sobre a evangelização da juventude aprovado pela CNBB na assembléia de maio de 2007 e que relação tem com a V.Conferência Episcopal Latino-Americana?

Hilário Dick – O documento “Evangelização da Juventude – Desafios e perspectivas pastorais”, aprovado na última assembléia da CNBB, é novidade em vários sentidos, pois pela primeira vez a juventude merece um documento oficial do colégio episcopal brasileiro num pronunciamento amplo e completo, tentando dizer onde mora a felicidade do jovem na perspectiva da fé. Além disso, há um esforço de dar uma espinha central para todos os trabalhos de evangelização da juventude. O que está dito vale para todos e não só para alguns segmentos.

O documento também reconhece e afirma algumas opções pedagógicas fundamentais no trabalho evangelizador da juventude: o valor da vivência grupal, a formação integral, a importância da organização, o respeito às diferentes juventudes, o papel do acompanhamento através de pessoas que vivam o ministério da assessoria como opção. Outra grande novidade do documento está na afirmação do jovem como realidade teológica, não só sociológica, cultural, psicológica, jurídica ou biológica.

Quanto à relação com a V Conferência, infelizmente não há muito a dizer. O documento preparatório da Conferência toca no tema da juventude de forma muito ligeira, não se apresentando – de forma nenhuma – como uma possível opção preferencial. O discurso de Bento XVI aos jovens talvez faça que o tema volte à mesa de debate da Conferência.

Jornalismo – Como influencia a cultura pós-moderna na formação de lideranças jovens?

Hilário Dick – A juventude de nosso século sofre uma avalanche de influências como nunca na história. A comparação que vem à mente é o que se fez no tempo do nazismo e do fascismo, com pressões governamentais. Hoje, a influência diária vem, principalmente, através dos meios de comunicação. Numa sociedade que vive uma mudança de paradigma, num contexto assim, os meios de comunicação têm uma força na mente juvenil como não se pode imaginar. O que vale hoje, por exemplo, é a utopia corporal, isto é, quando se diz que o que vale é o que eu aparento, quando se afirma (mesmo sem dizê-lo) que a utopia sou eu mesmo e o outro não existe, deixando de lado o que era visível em décadas anteriores: a utopia social. Formar lideranças juvenis para o coletivo enfrenta um bombardeio difícil de enfrentar. Por outro lado, dentro e fora das igrejas, fala-se muito na elaboração do projeto de vida. Talvez seja a melhor forma pedagógica de colaborar na construção de lideranças.

Jornalismo – Qual é o interesse da Igreja pelos jovens?

Hilário Dick – Quando se elaborava e se esperava o documento “Evangelização da Juventude”, temia-se que fosse um documento interesseiro: conquistar os jovens para a Igreja e não traduzir uma mensagem de felicidade para o jovem como tal. O documento aprovado demonstra que os próprios bispos tiveram o cuidado explícito de não ter essa atitude, tomando uma postura de convite gratuito, isto é, não queremos jovens para nós; queremos jovens que sejam felizes. Por outro lado, os bispos viram a importância de dizerem, de modo mais completo, o que pode ser uma evangelização da juventude, com todas as conseqüências práticas. As pistas de ação do documento são um caminho que se abre para diferentes possibilidades.

Jornalismo – Quais são algumas temáticas que os jovens necessitam refletir para poder avançar no compromisso social, ético, político e religioso na Igreja Latino-americana?

Hilário Dick – Atrevo-me a dizer uma e outra “coisa”, sabendo que ficam de lado outras, também fundamentais, dependendo de como se olha a pergunta. Tais como:

a) trabalhar de forma bíblica e teológica o seguimento de Jesus. Nada mais importante que escolas de Bíblia adaptadas para jovens. No dia em que conseguirmos ajudar o jovem a descobrir a Bíblia, a Igreja e a sociedade não serão mais as mesmas;

b) garantir a vivência equilibrada, teológica e pedagógica do protagonismo juvenil. Um aspecto que entra nisso é a própria organização juvenil, não manipulada por nada e ninguém. Nem os carismas específicos. Obstaculizar uma organização juvenil mais ampla (diocesana, nacional e latino-americana) é um pecado contra a felicidade juvenil;

c) conseguir que os jovens recomecem a fazer análises de conjuntura, amadurecendo suas visões de mundo. A análise de conjuntura vai ao encontro da vocação profética que Deus plantou em nós, também nos jovens;

d) ajudar os jovens das igrejas a que aprendam o que é, de fato, a Liturgia. A Liturgia, como vivência e expressão, em toda a sua dinamicidade, é algo que vai ao encontro de qualquer jovem;

e) facilitar e fomentar, de forma alegre e atualizada, respeitando as diversidades, as vivências grupais dos jovens. A realidade já está provando que – mesmo hoje, com todas as facilidades de “navegar” e ter relações virtuais – o jovem quer uma vida grupal. Negar isso é desconhecer a realidade de nossas cidades, grandes e pequenas. O jovem é aquele que vive a experiência coletiva na sua expressão mais genuína. Paro aqui, sabendo que há muito mais a dizer.

Jornalismo – Os grupos de jovens parecem ser uma proposta já ultrapassada. Existe alguma novidade para formar grupos e comunidades juvenis com outra dinâmica mais atual?

Hilário Dick – Dizer que os “grupos de jovens” são uma proposta ultrapassada é dizer uma heresia para quem compreende o que é ser jovem. Ultrapassadas são, certamente, algumas formas como “se levam” certos grupos. O que está ultrapassada é a pedagogia dos que “animam” certos grupos. Ultrapassada é a mentalidade “moderna” que não acredita mais que a felicidade está no coletivo e não acredita mais que o ser humano é essencialmente comunitário. O melhor educador de jovens é aquele que acredita no comunitário; acreditando nisso saberá encontrar a pedagogia que se impõe no momento atual. Basta ler as teses e dissertações que vão aparecendo sobre esse assunto; basta refletir sobre o que se vê, lidando com a realidade grupal juvenil.

Jornalismo – Quais são os pontos a destacar do discurso do Papa aos jovens?

Hilário Dick – O discurso do Papa Bento XVI, no estádio Pacaembu, divide-se em sete pontos:

1) a alegria de estar aí com os jovens, vendo sua fraternidade, e ver que os bispos do Brasil discutiram e elaboraram um documento sobre a evangelização juvenil;

2) o destaque que dá ao protagonismo que os jovens precisam viver a partir do que Deus sonhou com a juventude e, de modo especial, não estando cegos aos grandes problemas do universo, como é a devastação ambiental da Amazônia;

3) o Deus de Jesus Cristo é um Deus da vida e a vida na juventude é exuberante e bela. O jovem quer viver e não quer morrer. O único que responde a esse desejo humano e juvenil é Jesus Cristo;

4) Jesus Cristo é bom e é mestre e é por isso que os jovens amam tanto a Jesus que querem alguém que seja “bom” e que seja referência. Contudo, para perceber o bem necessitamos de auxílios. Um dos auxílios é a vivência dos mandamentos:

5) o jovem do Evangelho, dizendo que “tudo isso tenho observado”, prova que ele era bom. O jovem é uma realidade teológica. Neste contexto, o Papa fala dos três medos do jovem de hoje: o medo de morrer, o medo de sobrar e o medo de estar desconectado e os envia para a grande missão de anunciar a boa nova a todos os jovens, sendo apóstolos dos jovens, protagonistas de uma sociedade nova, sendo homens e mulheres livres, fazendo da família um foco irradiador. “Saibam ser”, diz o Papa, “protagonistas de uma sociedade mais justa e mais fraterna”, inspirada no Evangelho, promotora de vida, eliminando discriminações existentes nas sociedades latino-americanas, resistindo às insídias existentes em muitos ambientes, não deixando de lado, também, os chamados de Deus para a vida religiosa;

6) refletindo sobre o jovem do Evangelho que se retira porque era rico, o Papa fala novamente da riqueza juvenil que é a vida, descoberta como dom e conquista, e a liberdade, não tendo medo na opção, como o jovem apresentado por Cristo e que se retira triste;

7) a última parte da mensagem do Papa fala, novamente, que a juventude não é apenas o futuro mas o presente da igreja e da humanidade. “Sois seu rosto jovem”, afirma Bento XVI e acrescenta: “Sem o rosto jovem a igreja se apresenta desfigurada”. Não há dúvida que o discurso do Papa é sugestivo e merece ser aprofundado. Mas, no geral, não deixa de abrir portas e janelas, mesmo que não fale de aspectos que poderíamos esperar.

 

Entrevista concedida ao portal IHU On-Line via e-mail, reproduzida na íntegra pelo Jovens Conectados.

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