[ARTIGO] Dia de combate ao uso de drogas e álcool: “Vai, e também tu, faze o mesmo”

[ARTIGO] Dia de combate ao uso de drogas e álcool: “Vai, e também tu, faze o mesmo”

Todos os anos, o Ministério da Saúde destaca o dia 20 de fevereiro como o Dia Nacional de Combate às Drogas e Alcoolismo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a dependência em drogas lícitas ou ilícitas é uma doença.

 “Vai, e também tu, faze o mesmo”

Por: Pe. Felipe Augusto Bracher Pasquini

Escolhi, como tema deste artigo, a parábola do “Bom Samaritano”, relatado por S. Lucas, no capítulo 10, versículos de 25 a 37; e como situação existencial a ser acompanhada escolhi a dor/sofrimento/enfermidade. Por ser uma parábola onde Jesus de Nazaré, o Cristo, resignifica o próximo (todos) e o amor (cuidado) a ele devido, ela é sinal (modelo) da verdadeira práxis e espiritualidade cristã.

Eis, abaixo, o parágrafo da parábola para melhor analisar e refletir a direção divina para o acompanhamento espiritual:

25 E eis que um legista se levantou e disse para experimentá-lo: ‘Mestre, que farei para herdar a vida eterna?’ 26 Ele disse; ‘Que está escrito na Lei? Como lês?’ 27 Ele, então, respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo’. 28 Jesus disse: ‘Respondeste corretamente; faze isso e viverás’.
29 Ele, porém, querendo se justificar, disse a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’ 30 Jesus retomou: ‘Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto. 31 Casualmente, descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. 32 Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu. 33 Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. 34 Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados. 35 No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo: ‘Cuida dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei’. 36 Qual dos três, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?’ 37 Ele respondeu: ‘Aquele que usou de misericórdia para com ele’. Jesus então lhe disse: ‘Vai, e também tu, faze o mesmo’.

Neste parágrafo, relatado por Lucas, o Senhor Jesus ensina que a verdadeira prática/vivência da Lei se faz no amor a Deus e ao próximo, manifestado no cuidado necessário (vers. 34) ao problema observado (vers. 33).

Segundo Kodell, OSB, Jesus mostra que a caridade deve ser manifestada a todas as pessoas, não somente àquelas que fazem parte do “povo escolhido” ou do “meu grupo”, pois todos devem ser considerados como nosso próximo:

A história de Jesus responde que não há ninguém que não seja meu próximo. ‘Próximo’ não é questão de laços sanguíneos, nem de nacionalidade, nem de comunhão religiosa; é determinado pela atitude de um indivíduo para com os outros. O sacerdote e o levita eram bem versados nas exigências da Lei divina e, como o legista, com certeza saberiam interpretá-la para os outros. Mas não compreenderam o propósito mais profundo da Lei, enquanto o samaritano, ao praticar o amor, mostrou que a compreendia.

A atitude, segundo Kodell, que temos para com o outro é que torna o “eu” e o “outro” próximo. Baseado nesta “atitude” dada por Jesus Cristo como exemplo/modelo a ser imitado que iniciamos a nossa reflexão.

Atualizando a Palavra divina poderíamos colocar no lugar do homem (vers. 30) pessoas que estão doentes, perturbadas, depressivas, com dúvidas e/ou em discernimento vocacional, que são “despojadas e espancadas” (vers.30) por inúmeros conflitos. Mas, coloco em seu lugar os dependentes químicos e alcoólatras, para refletir, com a Palavra, qual deva ser a nossa práxis e as dinâmicas espirituais em movimento.

Os dependentes químicos e alcoólatras são constantemente “despojados e espancados” pelas drogas, pelos conflitos, pelos traficantes, pelo grande sofrimento interno, especialmente por sua carência afetiva; como refletiu o Papa (São) João Paulo II, são “doente de amor” . Despojados da própria dignidade, da boa convivência familiar, do emprego, da sobriedade/sanidade…

Uma parcela da sociedade e dos Governos (sacerdote e levita) por suas atitudes e descaso ante esta problemática, continuam se “desviando” destes “enfermos”; indiferentes, preconceituosos. Os tratam como marginais, bandidos, a escória da sociedade, como lixo!

 

Na parábola do “Bom Samaritano” temos o modelo em como deve ser a nossa práxis. Não como uma simples ação, mas uma ação no e com amor, no cuidado, na atenção dedicação para devolver ao outro (próximo) a sua dignidade.

A partir do versículo 33 o Senhor nos ensina a ver o outro com “compaixão” (vers.33), perceber as suas necessidades, ver além de suas misérias, logo, ver uma pessoa, um filho amado de Deus. Como um dia, segundo o livro do Êxodo (Cf. Ex 3,7-12) Deus viu o sofrimento do povo, tomou conhecimento e desceu para socorrê-lo, e enviou Moisés para cuidar/zelar pelo povo, tirando-os do Egito, da escravidão.

Mas, para vermos a realidade do outro, suas enfermidades e necessidades, nos é necessário o desprendimento de nós mesmos, a exemplo do samaritano que estava em viagem (vers. 33) e a adiou para socorrer o seu próximo.

Precisamos estar mais disponíveis ao outro [desapegados de nós e de nossas coisas]! Assim, estaremos livres para nos aproximar (vers. 34), ver o grau do sofrimento, as suas necessidades e melhor poder ajudar!

Deus nos confia (chama) uma missão: devolver a dignidade à pessoa humana. Devemos, portanto, estar atentos às suas necessidades, nas mais diversas áreas “enfermas” de nossa sociedade e de nos aproximarmos para cuidar de suas “feridas” (vers. 34).

Primeiro oferecer aquilo que é mais urgente (óleo e vinho): roupa, comida, um lugar para dormir, curativos, hospitalização/tratamento (hospedagem), etc.

Tomar conhecimento (vers. 34-35), na problemática da drogadicção, das causas primeiras, em conhecer a história pessoal da pessoa para melhor acompanhar/orientar (hospedagem).

 

Ajudar a pessoa no autoconhecimento – suas qualidades e não somente os seus defeitos e erros -, a aceitar-se amar-se, e a reavivar a esperança na possibilidade concreta da sobriedade, do valor de si mesmo, sua dignidade, em reconstruir a própria vida.

Ao cuidar do próximo dá-se a ele a oportunidade do conhecimento do seu real valor! Ensinar a viver, pois “a vida nesta terra foi dada para ser vivida, não rejeitada como má ou indigna de consideração, indigna de ser vivida.”

No versículo 35, em que o samaritano deixa o homem na hospedaria para cuidarem dele, podemos “ver” duas dinâmicas espirituais: a primeira da atitude de confiança de Deus para conosco e a segunda, a atitude de confiança entre nós e outros colaboradores.

Na primeira dinâmica, Deus e nós, o Senhor nos confia a missão de cuidar destes que são [foram] “despojados e espancados” pelas drogas, ou seja, nos entrega para darmos continuidade àquilo que Ele iniciou ao tocar o coração do próximo, fazendo-o aceitar ajuda, orientação ou até mesmo um tratamento. Na segunda, nós e outros, conforme a nossa possibilidade inicia-se o acompanhamento e orientação [espiritual e humana] e ao percebermos que há resistência, o acompanhamento não flui, ou há a necessidade de um tratamento mais específico encaminha-se a outros colaboradores (psicólogos/psiquiatras) para nos auxiliar, para que o resultado final não seja somente a sobriedade e abstinência das drogas, mas a resignificação da própria vida do acompanhado.

Esta orientação e acompanhamento devem, como já observado, seguir o exemplo do Cristo, o verdadeiro Samaritano que, chega perto, vê, tem compaixão, se aproxima, se inclina, cuida/trata, acompanha, retorna… E para melhor nos assemelharmos ao exemplo do Senhor precisamos estar unidos em comunhão com Ele. E, segundo, Costa, SJ,

Falar de seguimento implica, portanto, uma experiência de aproximação a Jesus, cheia de amor, de afeto, de respeito, em um movimento de acompanhar a Jesus itinerante. Implica um assumir na própria vida o destino de Jesus, ou seja, viver em solidariedade radical, em meio aos riscos e perseguições, assim como viveu Jesus, homem-para-os-demais.

 

Portanto, faz-se necessário o conhecimento [pessoal e teológico] de Cristo Jesus e suas atitudes para nos assemelharmos a Ele e melhor auxiliar os nossos próximos na orientação e tratamento, devolvendo assim, a esperança.

Seguimento, como bem reflete Auth e Bombonatto, “é a linha mestra traçada por Jesus para caminhar e o Espírito é a força que nos capacita a caminhar real e atualizadamente por esse traçado, ao longo da história” .
Não estamos sozinhos nesta missão, o Senhor está conosco através do Espírito Santo, de seu amor, que nos capacita e orienta nesta árdua missão possível: devolver a dignidade aos filhos de Deus “despojados e assaltados” pelas drogas!

Este texto bíblico pode auxiliar o orientador em perceber o outro, ser sensível ao sofrimento do próximo, não olhar somente para si, e a ter uma direção em como agir, donde partir. Ao orientando, auxilia na compreensão de que Deus, além de não ser indiferente ao seu sofrimento [ao que lhe acontece ou aconteceu], ajuda a todos diretamente ou indiretamente, inspirando outros à solidariedade. O cuidado para com o outro é expressão da verdadeira práxis cristã, logo, do verdadeiro seguimento de Jesus Cristo!

Concluo, mesmo sabendo que esta reflexão está longe de ser esgotada, com a reflexão de Mongillo sobre o seguimento e a nossa responsabilidade na sociedade para reconstruí-la:

O amor de quem segue Jesus Cristo é amor a um mundo que está por ser construído e por ser reconstruído, inspira presença viva e transformante que é vivida de forma concreta, com opções e orientações precisas que impregnam todas as dimensões da vida pessoal e comunitária.

 

BIBLIOGRAFIA

AUTH, Romi; BOMBONATTO, Vera Ivanise. A minha alma tem sede de Deus: Teologia da espiritualidade bíblica. [Teologias bíblicas 18], São Paulo: Paulinas, 2013.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 3.ed., São Paulo: Paulus, 2004.

COMBLIN, José. VIVER NA ESPERANÇA. São Paulo: Paulus, 2010.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PASTORAL DA SAÚDE. Droga e Toxicodependência: O desafio de uma intervenção global. [Trad. Adérito Lourenço Louro]. São Paulo, Brasil: Loyola, 2006.

COSTA, SJ, Alfredo Sampaio. APOSTILA II – DINÂMICAS DA VIDA ESPIRITUAL SORRENTINO. O caminho espiritual como processo de seguimento e conformação a Cristo. Belo Horizonte: FAJE, 2014

KODELL, OSB, Jerome. Evangelho de Lucas. In. COMENTÁRIO BÍBLICO vl.III. [Evangelhos, e Atos, Cartas, Apocalipse] 5ª ed. [Organizadores: Dianne Gergant, CSA e Robert J. Karris, OFM], [p.90], São Paulo: Loyola, 2010.

MONGILLO, Dalmazio. Verbete: Seguimento. In. DICIONÁRIO DE ESPIRITUALIDADE. (Org. Stefano de Fiores, Tullo Goffi), [Trad. Augusto Guerra, Isabel Fontes Leal Ferreira], 3.ed., [p.1047], São Paulo: Paulus, 2005.

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