Cuidar da vida: um compromisso com as juventudes

Cuidar da vida: um compromisso com as juventudes

por Jonathan Igor da Silva — Psicólogo
Representante das Juventudes de Congregação na Comissão Episcopal para a Juventude do Brasil (CEJ)

 

Às juventudes de todo o Brasil e a todos os agentes de pastoral que caminham com elas, leigos e leigas, sacerdotes, religiosos e religiosas, educadores, familiares e tantas outras pessoas que fazem da escuta, do acompanhamento e do cuidado uma forma concreta de evangelização, que a graça e a paz de Jesus, o Divino Salvador, estejam com todos vocês. Ao iniciarmos o mês de setembro, marcado pela campanha de valorização da vida por meio da prevenção do suicídio, como Igreja hoje somos convocados a não partir do medo, mas da esperança; e não apenas repassar estatísticas frias, mas olhar para a vida concreta de cada jovem que carrega sonhos, dores, perguntas, silêncios e desejos profundos de sentido.

A partir desse olhar para a vida concreta, podemos falar sobre o Setembro Amarelo não apenas como uma campanha, mas como um apelo urgente à valorização da vida e ao cuidado com a saúde mental das juventudes. Trata-se de um chamado ético, humano, cristão e pastoral para reconhecer que a saúde mental se tornou um dos grandes gritos das juventudes do nosso tempo. Falar sobre esse tema com responsabilidade não é abrir espaço para a morte, mas romper com silêncios repressivos, criar pontes, oferecer presença e devolver ao sofrimento a possibilidade de encontrar escuta, cuidado e companhia.

A história que inspira o símbolo amarelo nasceu de uma dor real: a morte de Mike Emme, jovem norte-americano que, em 1994, foi vítima do suicídio. Depois de sua morte, amigos e familiares distribuíram fitas amarelas com mensagens de apoio, transformando o luto em alerta, memória e cuidado. Desde então, o amarelo passou a lembrar que uma vida interrompida não pode ser reduzida ao seu fim, mas precisa convocar comunidades inteiras a aprenderem a escutar antes que a dor se torne insuportável.

No Brasil, segundo dados citados pelo CVV a partir do Ministério da Saúde, foram registrados 15.507 casos de suicídio em 2021, uma média de 42 mortes por dia. O mesmo material recorda que, para cada suicídio, estima-se que muitas outras pessoas façam tentativas ou pensem seriamente em tirar a própria vida. No cenário brasileiro, o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde também aponta o suicídio como a segunda principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos. Contudo, esses dados não devem ser usados para produzir pânico, mas para despertar responsabilidade: o sofrimento juvenil precisa ser levado a sério.

Mas por que as juventudes são tão afetadas?

Não há uma única resposta. A juventude é tempo de construção da identidade, amadurecimento do corpo, elaboração de vínculos, escolhas vocacionais, descobertas afetivas, conflitos familiares, pressões escolares, exigências sociais e busca de pertencimento. Há fatores biológicos, psíquicos e sociais que atravessam esse processo: alterações do desenvolvimento, vulnerabilidades emocionais, transtornos mentais, traumas, violências, exclusões, discriminações, precariedade econômica, solidão, hiperexposição digital e ausência de redes de apoio.

Contudo, é preciso dar um passo além. Muitos jovens não sofrem apenas pelo que sentem internamente, mas também pelo modo como são vistos, invalidados, negligenciados, oprimidos ou reprimidos pelo Outro. Em linguagem psicanalítica, esse Outro representa também as vozes, instituições, expectativas e discursos que atravessam a vida de cada sujeito. Quando um jovem escuta repetidamente que sua dor é “drama”, “frescura”, “falta de fé”, “fraqueza” ou “exagero”, ele aprende a calar. E quando a dor perde o direito de ser expressa, ela pode procurar saídas cada vez mais perigosas.

É diante dessa dor, muitas vezes silenciada, que a resposta pastoral precisa ser concreta. Uma das medidas mais importantes é aprender a acolher, escutar e encaminhar. Acolher é criar um lugar seguro para que o jovem não se sinta julgado nem diminuído em sua dor. Escutar, por sua vez, pede uma escuta ativa, feita com respeito pelo outro e pelo que ele partilha, com tempo dedicado a se concentrar verdadeiramente nele, atenção às emoções e aos gestos que acompanham a fala, contato visual, expressões de acolhimento e interesse, cuidado para não interromper enquanto o outro fala, perguntas que não sirvam apenas para quem escuta saber mais, mas também para que o próprio jovem possa compreender melhor aquilo que vive, e uma comunicação clara, simples e educada.

Portanto, esse cuidado pode acontecer também por meio das pastorais, especialmente através da Pastoral da Escuta, da Pastoral Familiar e da própria Pastoral Juvenil, nos grupos de jovens, nas comunidades, nas escolas, nas famílias e nos espaços eclesiais que oportunizam verdadeiros encontros. No entanto, acolher e escutar não significa assumir sozinho aquilo que exige acompanhamento especializado. Por isso, o encaminhamento responsável aos profissionais de saúde, como psicólogos, psiquiatras, médicos e serviços da rede pública ou privada, precisa fazer parte da resposta pastoral. A Igreja não substitui a clínica, mas pode ser ponte; os profissionais de saúde não substituem a comunidade, mas também precisam dela para que o cuidado seja integral.

Nesse horizonte, o Projeto Cuidar da Vida, promovido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da CNBB em parceria com a Pastoral da Educação, se apresenta também como uma resposta concreta e necessária aos apelos pela vida dos jovens brasileiros, formando lideranças e capacitando agentes multiplicadores para atuarem na prevenção ao suicídio de adolescentes e jovens. A cartilha desenvolvida como subsídio do projeto ajuda grupos juvenis a assumir, de modo prático, o cuidado e a valorização da vida. Por isso, junto com esta reflexão, também disponibilizamos, no site Jovens Conectados, o link para download da Cartilha: Cuidar da Vida – Prevenção ao Suicídio de Adolescentes e Jovens, para que comunidades, paróquias, escolas e todas as expressões juvenis possam encontrar nela um instrumento de formação, prevenção, cuidado e pósvenção.

Cuidar da vida é missão de todos. Neste Setembro Amarelo, que nossas comunidades não sejam lugares onde a dor precise se esconder, mas casas de escuta, redes de esperança e pontes para o cuidado profissional quando ele for necessário. Que cada jovem possa encontrar alguém capaz de dizer, com gestos antes mesmo das palavras: sua vida importa, sua dor merece cuidado, você não precisa caminhar sozinho. Assim, seguimos anunciando, com Jesus, o Divino Salvador, que toda vida é digna de cuidado e que nenhuma dor deve ser ignorada, inclusive a sua, jovem.

 

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 4, 2024. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf>. Acesso em: 3 set. 2026.

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA. Conheça mais. CVV, [s.d.]. Disponível em: <https://cvv.org.br/conheca-mais/>. Acesso em: 3 set. 2026.

COMISSÃO EPISCOPAL PASTORAL PARA A JUVENTUDE. Conheça o Projeto “Cuidar da Vida – Prevenção ao Suicídio de jovens e adolescentes”. Jovens Conectados, 2 maio 2024. Disponível em: <https://jovensconectados.org.br/conheca-o-projeto-cuidar-da-vida-prevencao-ao-suicidio-de-jovens-e-adolescentes.html>. Acesso em: 3 set. 2026.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Comissão Episcopal para a Juventude lança projeto “Cuidar da Vida” de prevenção ao suicídio entre jovens. CNBB, 14 mar. 2024. Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/comissao-episcopal-para-a-juventude-lanca-projeto-cuidar-da-vida-de-prevencao-ao-suicidio-entre-jovens/>. Acesso em: 3 set. 2026.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Projeto Cuidar da Vida: prevenção ao suicídio de adolescentes e jovens. Brasília: CNBB, 2024. Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/wp-content/uploads/2024/03/Projeto-Cuidar-da-Vida.pdf>. Acesso em: 3 set. 2026.

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Cuidar da vida: um compromisso com as juventudes

por Jonathan Igor da Silva — Psicólogo
Representante das Juventudes de Congregação na Comissão Episcopal para a Juventude do Brasil (CEJ)

 

Às juventudes de todo o Brasil e a todos os agentes de pastoral que caminham com elas, leigos e leigas, sacerdotes, religiosos e religiosas, educadores, familiares e tantas outras pessoas que fazem da escuta, do acompanhamento e do cuidado uma forma concreta de evangelização, que a graça e a paz de Jesus, o Divino Salvador, estejam com todos vocês. Ao iniciarmos o mês de setembro, marcado pela campanha de valorização da vida por meio da prevenção do suicídio, como Igreja hoje somos convocados a não partir do medo, mas da esperança; e não apenas repassar estatísticas frias, mas olhar para a vida concreta de cada jovem que carrega sonhos, dores, perguntas, silêncios e desejos profundos de sentido.

A partir desse olhar para a vida concreta, podemos falar sobre o Setembro Amarelo não apenas como uma campanha, mas como um apelo urgente à valorização da vida e ao cuidado com a saúde mental das juventudes. Trata-se de um chamado ético, humano, cristão e pastoral para reconhecer que a saúde mental se tornou um dos grandes gritos das juventudes do nosso tempo. Falar sobre esse tema com responsabilidade não é abrir espaço para a morte, mas romper com silêncios repressivos, criar pontes, oferecer presença e devolver ao sofrimento a possibilidade de encontrar escuta, cuidado e companhia.

A história que inspira o símbolo amarelo nasceu de uma dor real: a morte de Mike Emme, jovem norte-americano que, em 1994, foi vítima do suicídio. Depois de sua morte, amigos e familiares distribuíram fitas amarelas com mensagens de apoio, transformando o luto em alerta, memória e cuidado. Desde então, o amarelo passou a lembrar que uma vida interrompida não pode ser reduzida ao seu fim, mas precisa convocar comunidades inteiras a aprenderem a escutar antes que a dor se torne insuportável.

No Brasil, segundo dados citados pelo CVV a partir do Ministério da Saúde, foram registrados 15.507 casos de suicídio em 2021, uma média de 42 mortes por dia. O mesmo material recorda que, para cada suicídio, estima-se que muitas outras pessoas façam tentativas ou pensem seriamente em tirar a própria vida. No cenário brasileiro, o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde também aponta o suicídio como a segunda principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos. Contudo, esses dados não devem ser usados para produzir pânico, mas para despertar responsabilidade: o sofrimento juvenil precisa ser levado a sério.

Mas por que as juventudes são tão afetadas?

Não há uma única resposta. A juventude é tempo de construção da identidade, amadurecimento do corpo, elaboração de vínculos, escolhas vocacionais, descobertas afetivas, conflitos familiares, pressões escolares, exigências sociais e busca de pertencimento. Há fatores biológicos, psíquicos e sociais que atravessam esse processo: alterações do desenvolvimento, vulnerabilidades emocionais, transtornos mentais, traumas, violências, exclusões, discriminações, precariedade econômica, solidão, hiperexposição digital e ausência de redes de apoio.

Contudo, é preciso dar um passo além. Muitos jovens não sofrem apenas pelo que sentem internamente, mas também pelo modo como são vistos, invalidados, negligenciados, oprimidos ou reprimidos pelo Outro. Em linguagem psicanalítica, esse Outro representa também as vozes, instituições, expectativas e discursos que atravessam a vida de cada sujeito. Quando um jovem escuta repetidamente que sua dor é “drama”, “frescura”, “falta de fé”, “fraqueza” ou “exagero”, ele aprende a calar. E quando a dor perde o direito de ser expressa, ela pode procurar saídas cada vez mais perigosas.

É diante dessa dor, muitas vezes silenciada, que a resposta pastoral precisa ser concreta. Uma das medidas mais importantes é aprender a acolher, escutar e encaminhar. Acolher é criar um lugar seguro para que o jovem não se sinta julgado nem diminuído em sua dor. Escutar, por sua vez, pede uma escuta ativa, feita com respeito pelo outro e pelo que ele partilha, com tempo dedicado a se concentrar verdadeiramente nele, atenção às emoções e aos gestos que acompanham a fala, contato visual, expressões de acolhimento e interesse, cuidado para não interromper enquanto o outro fala, perguntas que não sirvam apenas para quem escuta saber mais, mas também para que o próprio jovem possa compreender melhor aquilo que vive, e uma comunicação clara, simples e educada.

Portanto, esse cuidado pode acontecer também por meio das pastorais, especialmente através da Pastoral da Escuta, da Pastoral Familiar e da própria Pastoral Juvenil, nos grupos de jovens, nas comunidades, nas escolas, nas famílias e nos espaços eclesiais que oportunizam verdadeiros encontros. No entanto, acolher e escutar não significa assumir sozinho aquilo que exige acompanhamento especializado. Por isso, o encaminhamento responsável aos profissionais de saúde, como psicólogos, psiquiatras, médicos e serviços da rede pública ou privada, precisa fazer parte da resposta pastoral. A Igreja não substitui a clínica, mas pode ser ponte; os profissionais de saúde não substituem a comunidade, mas também precisam dela para que o cuidado seja integral.

Nesse horizonte, o Projeto Cuidar da Vida, promovido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da CNBB em parceria com a Pastoral da Educação, se apresenta também como uma resposta concreta e necessária aos apelos pela vida dos jovens brasileiros, formando lideranças e capacitando agentes multiplicadores para atuarem na prevenção ao suicídio de adolescentes e jovens. A cartilha desenvolvida como subsídio do projeto ajuda grupos juvenis a assumir, de modo prático, o cuidado e a valorização da vida. Por isso, junto com esta reflexão, também disponibilizamos, no site Jovens Conectados, o link para download da Cartilha: Cuidar da Vida – Prevenção ao Suicídio de Adolescentes e Jovens, para que comunidades, paróquias, escolas e todas as expressões juvenis possam encontrar nela um instrumento de formação, prevenção, cuidado e pósvenção.

Cuidar da vida é missão de todos. Neste Setembro Amarelo, que nossas comunidades não sejam lugares onde a dor precise se esconder, mas casas de escuta, redes de esperança e pontes para o cuidado profissional quando ele for necessário. Que cada jovem possa encontrar alguém capaz de dizer, com gestos antes mesmo das palavras: sua vida importa, sua dor merece cuidado, você não precisa caminhar sozinho. Assim, seguimos anunciando, com Jesus, o Divino Salvador, que toda vida é digna de cuidado e que nenhuma dor deve ser ignorada, inclusive a sua, jovem.

 

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 4, 2024. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf>. Acesso em: 3 set. 2026.

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA. Conheça mais. CVV, [s.d.]. Disponível em: <https://cvv.org.br/conheca-mais/>. Acesso em: 3 set. 2026.

COMISSÃO EPISCOPAL PASTORAL PARA A JUVENTUDE. Conheça o Projeto “Cuidar da Vida – Prevenção ao Suicídio de jovens e adolescentes”. Jovens Conectados, 2 maio 2024. Disponível em: <https://jovensconectados.org.br/conheca-o-projeto-cuidar-da-vida-prevencao-ao-suicidio-de-jovens-e-adolescentes.html>. Acesso em: 3 set. 2026.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Comissão Episcopal para a Juventude lança projeto “Cuidar da Vida” de prevenção ao suicídio entre jovens. CNBB, 14 mar. 2024. Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/comissao-episcopal-para-a-juventude-lanca-projeto-cuidar-da-vida-de-prevencao-ao-suicidio-entre-jovens/>. Acesso em: 3 set. 2026.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Projeto Cuidar da Vida: prevenção ao suicídio de adolescentes e jovens. Brasília: CNBB, 2024. Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/wp-content/uploads/2024/03/Projeto-Cuidar-da-Vida.pdf>. Acesso em: 3 set. 2026.

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