Celebrar a Santíssima Trindade em tempos de Pandemia!

Publicado em 7 de junho de 2020 Por Seja o primeiro a comentar!

Celebramos, neste domingo, o principal mistério da fé cristã: a Santíssima Trindade, Deus Uno e Trino. Quantos cristãos, ao longo da história, buscaram “compreender” esse mistério, na oração ou na linguagem… como Santo Agostinho, que teria sido interpelado por uma criança, quando o meditava: “Eu te digo, é mais fácil colocar toda a água do oceano neste pequeno poço, na areia, do que a inteligência humana compreender os mistérios de Deus”.

Esse mistério eminente não foi criado pela Igreja, nem mesmo pela imaginação dos artistas; ele foi revelado por Jesus Cristo, quando falou de Si mesmo, do Pai e do Espírito Santo, como comunhão dos divinos três, interpenetrados por um único amor, revelando um só Deus. Nesta perspectiva, Deus é família-comunhão, centrada no amor que gera vida para o mundo, eternamente debruçada sobre o homem e a mulher, em união íntima com ele (a) no empenho de diminuir o mal no mundo. Um zelo amoroso, que revela Deus como o maior colaborador do ser humano, na missão de construir realidades de vida, dignidade e esperança.

Dessa forma, falar de Deus trinitário, será sempre uma busca de crescer na identificação com Ele, segundo o mandato de Jesus: “Sede santos porque o vosso Pai do céu é Santo” (Mt 5,48), cujas lições são inesgotáveis, uma vez que a Trindade é o eixo da nossa fé e a fonte de inspiração da vivência cristã. No entanto, eu gostaria de apresentar alguns elementos, que valem a pena aprofundar, neste tempo de pandemia.

  1. Unidade na pluralidadeindividualismo não, individualidade sim. Embora as três Pessoas divinas atuem na obra da criação, da redenção e da santificação, atribui-se a cada uma delas, cada uma dessas obras: O Pai é criador, o Filho é redentor e o Espírito Santo é santificador; mas a “individualidade” não fere a unidade. Num mundo individualista, onde o personalismo se sobrepõe ao “tu” e ao “nós”, essa forma de conceber cada Pessoa da Trindade tem muito a nos ensinar… Vale lembrar, que neste tempo pandêmico, fomos arremessados frente à frente com outras pessoas, no isolamento social, e temos que “conviver” ou “suportar” o outro na sua pluralidade. Que tal alargar essa experiência na pós pandemia? A individualidade é necessária para a descoberta constante dos dons a serem colocados a serviço da vida, enquanto o individualismo é a morte pessoal velada, em vista de uma falsa liberdade e autonomia.
  2. O amor interliga os trêsindiferença não, compaixão sim. O Papa Francisco tem lembrado que o contrário do amor é a indiferença, que mata de todas as formas e com todas as armas. Na Trindade “o Pai é o amante, o Filho é o amado e o Espírito Santo é o Amor” (Santo Agostinho); esta forma de AMAR e ser AMOR, apaga a concepção do amor humano como sentimento e o expõe como compromisso maior com a transformação das pessoas e do mundo. Um amor que não se retém, mas transborda, sai de si em forma de compaixão, libertando-nos das tendências narcisistas e das seguranças institucionais. Neste tempo de pandemia inúmeras ações de solidariedade têm pontuado o cenário da dor. Na pós pandemia, a pobreza e a miséria continuarão a gritar alto… Será preciso continuar avançando, arriscando a vida, para que a vida chegue em abundância para todos (cf. Jo 10,10).
  3. Comunhão/comunidadeisolamento solitário não, partilha de vidas sim. Nosso Deus não é solidão (um), não é dois (relação egoísta), mas é Três (comunhão/comunidade). A comum – unidade não é comunitarismo, mas vida fraterna, espaço para as diferenças, liberdade, sonhos, utopias e partilha de vida; inspiração para uma relação familiar sólida e uma eclesialidade sinodal. Na Comunidade, a Trindade suscita a diversidade de carismas, ministérios e serviços, uma vez que ela existe para a missão. Neste tempo de flagelo, temos aprendido que há dois isolamentos lícitos: para o conhecimento de si mesmo e por necessidade e proteção. Neste último vemos que o distanciamento é apenas físico e a comunhão se dá pelo coração e pela alma. Um terceiro, presente na sociedade moderna, é maléfico, o isolamento solitário. Este é contrário ao evangelho e pode evoluir para inúmeras doenças e levar ao suicídio.
  4. O Eterno Trêscultura da provisoriedade não, investimento no essencial sim. A sociedade globalizada marcada pela cultura do bem-estar, do relativo e do provisório, se defronta com a Trindade, cuja identidade é fixa e perene, embora dinâmica e sempre nova. “Eu peço que vocês sejam revolucionários, que vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem, que se rebelem contra esta cultura do provisório(Papa Francisco – encontro com voluntários da JMJ Rio 2013). Rebelar-se contra essa cultura de um contínuo êxodo, é apostar numa existência com meta centrada no essencial, cuja identidade se constrói e reconstrói nas surpresas do cotidiano, alimentando a esperança no reino definitivo. Nessa aposta, a fé e a confiança em Deus, garantem os passos com sentido.

Que a Santíssima Trindade, que escolheu habitar, não num céu distante, mas por excelência no coração humano, conceda-nos viver mergulhados na comunhão infinita desse amor entre os três, acolhendo a cada dia a novidade salvífica que o Pai, o Filho e o Espírito Santo nos quiserem revelar.

Dom Amilton Manoel da Silva, CP,
Bispo da diocese de Guarapuava (PR)
e membro da Comissão Episcopal
Pastoral para a Juventude.

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