Artigo: Os jovens, a Bíblia e o impacto da fé

Publicado em 1 de setembro de 2020 Por Seja o primeiro a comentar!

Por Dom Antônio de Assis Ribeiro, bispo Auxiliar de Belém
e membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude CNBB.

Introdução

A Bíblia não é uma enciclopédia de temas na qual cada realidade é descrita organicamente. A Bíblia é o livro da história do dinamismo na fé de um povo e também da história de um povo de fé. Nessa história encontramos a totalidade das dimensões humanas vividas no cotidiano, bem como uma diversidade de sujeitos de todas as fases: crianças, adolescentes, jovens adultos e idosos. 

O dinamismo da fé do antigo povo israelita presente na Sagrada Escritura não estava isolado, mas abraçava a totalidade das dimensões da vida, ou seja, a dimensão religiosa, política, econômica, afetiva, sexual, cultural, moral, etc. É dentro dessa moldura existencial ampla que encontramos os jovens na Sagrada Escritura. Eles estão profundamente integrados na vida da sociedade em que viveram. Por outro lado, falar dos jovens na Bíblia significa também reconhecer a diversidade de famílias, povos, contextos culturais, mentalidades e períodos históricos.

  • Enriquecer a pastoral juvenil

Nesta reflexão queremos ressaltar simplesmente o impacto da fé na vida do jovem israelita. Apesar de terem vivido numa “cultura adultocêntrica”, os jovens israelitas deram brilhantes testemunhos do protagonismo na vivência da própria fé e assim contribuíram para o enriquecimento da sociedade do seu tempo e da própria religião. Também os jovens de hoje estão envolvidos por tantos desafios. O confronto com os jovens da Bíblia poderá infundir neles, mais vigor, otimismo, conforto, fortaleza de ânimo e boas inspirações.  

A releitura desses dados da Sagrada Escritura, em relação aos jovens, pode muito contribuir para enriquecer a pastoral juvenil em nossos dias em diversos e importantes aspectos: na experiência de Deus, no protagonismo juvenil, na vida familiar, na inquietude diante dos desafios da religião, nas pressões da sociedade, na experiência da profecia, na relação de interação, sabedoria e respeito para com os mais velhos, na gestão dos conflitos e problemas pessoais, na capacidade de discernir e decidir o próprio projeto de vida, no testemunho da própria fé até mesmo chegando à experiência do martírio.

  • Deus conta com os jovens

Na Bíblia os jovens estão presentes desde o livro do Gênesis até o Apocalipse. Não há simplesmente a categoria jovem enquanto faixa etária, mas sujeitos concretos que se destacaram assumindo diversas formas de serviços na comunidade em que viveram. Por exemplo, ao longo da Bíblia encontramos jovens servos, auxiliares, líderes, juízes, profetas, militares, guerreiros, sacerdotes, governadores, reis, profissionais liberais, pastores, videntes, apóstolos e também diversos colaboradores dos apóstolos, sobretudo de Paulo e de Pedro. 

A Sagrada Escritura também ressalta com muita clareza as virtudes e as potencialidades dos jovens; fala da saúde juvenil, da beleza, do vigor, coragem, sagacidade, perspectiva de vida, a importância da aprendizagem, etc. Há em geral uma atenção muito positiva para com os jovens.  

  • Chamados a testemunhar a sabedoria

A Sagrada Escritura apresentando os jovens em pleno dinamismo como sujeitos, também é rica de indicações e estímulos. Eles são visto como sujeitos em processo de formação humana e religiosa. Por isso devem acolher, ler e praticar a Palavra de Deus para terem uma justa conduta (cf. Sl 119,9).

Os jovens são chamados a louvar e exaltar a Deus acima de tudo (cf. Sl 148,12-13); são solicitados a serem educados, sábios, prudentes e temperantes (cf. Pv 23,19-22). Reconhecendo a autoridade paterna e materna, os jovens são chamados a nunca perderem a consciência de serem filhos, por isso, devem crescer na obediência ao quarto mandamento honrar pai e mãe (cf. Eclo 3,2-17). 

Essa mesma perspectiva também se faz presente no novo testamento onde os mesmos são chamados a aprender a respeitar os mais velhos, a obedecerem a seus pais, e serem humildes reconhecendo a grandeza poderosa de Deus (cf 1Pd 5,5-6; Ef 6,1-2).  

Cheios de recursos os jovens também são convidados com prudência e sabedoria a aproveitar dos recursos da vida, como diz o Eclesiastes: “Jovem, alegre-se na sua juventude e seja feliz nos dias da mocidade. Siga os impulsos do seu coração e os desejos dos olhos. Contudo, saiba que Deus vai pedir contas a você de todas essas coisas. Expulse a melancolia do seu coração e afaste do seu corpo a dor, porque a juventude e os cabelos negros são fugazes” (Ecle 11,9-11).

  • A juventude é tempo de responsabilidade

 A fase juvenil não é somente tempo de aprendizagem e de obediência, mas também já é tempo do chamado a grandes responsabilidades. Os jovens são os primeiros nominados no projeto de libertação e celebração da Páscoa no deserto (cf. Ex 10,9); Davi foi chamado a ser Rei ainda muito jovem, assumindo assim uma grande responsabilidade e sem medo (cf. 1Sam 17,42). 

Apesar de não haver dados sobre sua idade, mas pelo contexto podemos imaginar que Deus contou com a disponibilidade de Moisés quando ainda era jovem cheio de sensibilidade social e indignação (cf. Ex 2-3), convocando-o para um enorme projeto libertário, o principal da história da Salvação no Antigo Testamento. Portanto, Deus conta com os jovens para grandes páscoas, superação, renovação, restauração da sociedade. Por outro lado, também eram jovens os profetas Jeremias, Isaías, Samuel, Daniel, etc. Todos eles passaram pela experiência do medo e da incerteza, todavia, a fé venceu o medo e abraçaram o chamado de Deus. 

Josué era um jovem auxiliar de Moisés que acompanhou o povo no processo de libertação da escravidão do Egito. Com a morte de Moisés ele foi chamado a assumir a liderança do povo e entrar na terra prometida. Quanta responsabilidade lhe coube! Apesar do processo de formação e de toda a experiência que teve com o grande Moisés, também Josué teve medo, mas Deus lhe disse: “ninguém poderá resistir a você durante toda a sua vida. Assim como estive com Moisés, estarei também com você: nunca o abandonarei nem o deixarei desamparado. Seja firme e corajoso… Não se desvie… você terá sucesso em todos os seus empreendimentos” (Js 1,5-7).

Daniel era ainda adolescente quando foi chamado a profetizar sendo promotor da justiça; jovem sábio, firme, corajoso, vidente, sonhador e intérprete. Apesar de perseguido e rechaçado pelas autoridades do seu tempo manteve-se firme e fiel em sua fé e em seu ministério. Do Novo Testamento, além de Jesus e discípulos de Jesus, podemos dar uma especial atenção ao jovem Timóteo; acompanhado e formado por Paulo tornou-se seu grande colaborador e assumindo responsabilidades de liderança comunitária servindo com autoridade (cf. 1Tm 4,12). Sabedor de desafios pelos quais passava Paulo lhe diz: “Que ninguém o despreze por ser jovem. Quanto a você mesmo, seja para os fiéis um modelo na palavra, na conduta, no amor, na fé, na pureza” (1Tim 4,12).

  • Juventude é tempo de resistência

Como nos dias de hoje, também os jovens presentes na Sagrada Escritura passaram por fortes e duras provações em relação à própria fé. É verdade que muitos deles não resistiram, mas temos testemunhos eloquentes de jovens fiéis às próprias convicções religiosas, aos seus princípios éticos, morais e estiveram dispostos a abraçar o martírio. 

Dentro do contexto de perseguição religiosa não poderíamos deixar de fazer menção ao eloquente fato narrado no segundo livro dos Macabeus quando uma mãe, sendo fiel a seus princípios religiosos e à sua consciência, é assassinada com todos os seus filhos. Apesar das ameaças, ofertas e promessas aliciadoras, nenhum dos seus jovens filhos foi capaz de trair a própria religião; nenhum se deixou seduzir e todos foram martirizados (cf. 2Mac 7,1-42).

Esse fato assim, como tantos outros, prova a verdade dita pelo apóstolo São João: os jovens alimentados pela Palavra de Deus permanecem com Deus e suportam o maligno (cf. 1Jo 2,14).

  • Alimentar e cultivar a fé

A resistência às tentações e a tantas formas de obstáculos para a sadia vida dos jovens só pode ser superada através do cultivo da fé e de uma profunda vida espiritual. O testemunho da fé não é gratuito, é preciso um longo processo de formação espiritual.

Dentro do contexto das inúmeras solicitações que recaem sobre a mente dos jovens, o salmista se questiona e, ao mesmo tempo, responde: “Como um jovem pode conservar pura a sua vida? Lendo, meditando e praticando a Palavra de Deus” (Sl 119,9). 

Nessa condição de robustez espiritual os jovens são chamados a fazer a experiência da exploração dos próprios recursos com sabedoria, por isso alerta o sábio Eclesiastes: “Lembre-se do seu Criador, nos dias da mocidade, antes que venham os dias tristes e cheguem os anos em que você dirá: «Não sinto mais gosto para nada» (Ecle 12,1-2). 

Desde a infância e a juventude somos chamados a nos alimentarmos da Palavra de Deus (cf. Sl 71,5; Sl 119,52; 2Tm 3,15) para crescermos em comunhão com o criador, sermos robustos e darmos o justo sentido para a nossa vida superando experiências difíceis. 

  • Fragilidades juvenis

Há muitas passagens da Sagrada Escritura que falam das fragilidades juvenis. Os jovens também se cansam, ficam exaustos, tropeçam e caem (cf. Is 40,29-31). Encontramos também relatos que falam de jovens desordeiros, libertinos, depravados (cf. Gn 19,4.11; 1Sam 2,17). Há também jovens que são manipulados, enganados, persuadidos ideologicamente, subjugados, violentados (cf. Re 12,8-10; 1Re 20,15; 2Cr 36,17).

Jesus encontrou um jovem que apesar de obediente aos mandamentos e cheio de boa vontade estava profundamente apegada aos bens materiais e sendo materialista não teve a liberdade suficiente para seguir o mestre, e lamentavelmente do Salvador se afastou com muita tristeza (cf. Mt 19,16-22).

Também em nossos dias muitos jovens se afastam do Salvador, do caminho da Verdade e perdem o sentido da vida porque estão apegados aos prazeres e as riquezas deste mundo. Apesar das suas fragilidades, Jesus Cristo contou com os jovens, os chamou, os desafiou à missão, dedicou-lhes tempo de convivência, foi-lhes honesto e firme no processo de formação deles, os acompanhou e os enviou em missão. Também hoje Jesus Cristo conta com jovens! 

  • Uma jovem chamada Maria

Para concluir esta reflexão não poderíamos deixar de falar, brevemente, sobre a mais importante de todas as jovens da Sagrada Escritura, aquela chamada Maria. Maria foi uma jovem que testemunhou uma vida rica de sentido, portadora de um sério projeto de vida e aberta à vontade de Deus. Maria experimentou uma profunda intimidade com Deus, profundamente sensível e solidária, também foi uma jovem cidadã (de Nazaré), inserida em sua cultura, fiel às tradições religiosas (cf. Lc 2,22-24.41); uma jovem que testemunhou a beleza de um protagonismo juvenil saudável, rico de boas iniciativas, fazendo-se disponível e abraçando desafios. 

Enfim Maria foi uma jovem mãe zelosa, que defendeu seu filho das ameaças de morte, o acompanhou e o educou; Maria foi presença contínua na vida do Filho e fiel seguidora do mesmo até a morte! Aos pés da cruz lá estava Maria! (cf. Jo 19,25). Maria nos recorda a urgência de educar os jovens para fidelidade, a paternidade e a maternidade responsáveis. 

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