Sínodo Pan-Amazônico: os clamores das Juventudes Amazônicas

Publicado em 15 de setembro de 2019 Por Seja o primeiro a comentar!

Um tema significante que, seguramente deverá ser objeto de reflexão no Sínodo Pan-Amazônico, é a questão juventude. Na região amazônica está concentrado, proporcionalmente, o maior índice de jovens do Brasil. A população da Amazônia é jovem.

Uma das maravilhas que contemplamos quando visitamos comunidades do interior, em todos os estados, é a quantidade de crianças, adolescentes e jovens que encontramos.

A Amazônia, portanto, é demograficamente a região da Esperança, andando na contramão do crescente envelhecimento da população Brasileira. A população da região norte cresceu 3,1% de 2009 até 2011. Quase 60% da população da região tem menos de 34 anos.

É importante refletirmos sobre os números, todavia, é mais importante ainda, contemplarmos a realidade de como vive essa massa infanto-juvenil. A situação é muito delicada e isso deve fazer eco no coração da Igreja Missionária.

Dramas juvenis na Amazônia:

Está claro no Instrumento Laboris uma profunda visão pessimista do mundo juvenil. Refiro-me ao fato de que sempre quando se fala da juventude está relacionada à situações negativas. É uma parte da realidade! Mas, é verdade, a coisa é séria! São muitos os dramáticos fenômenos das quais padecem as juventudes na Amazônia acusados no Instrumento Laboris e nas manchetes jornalísticas.

Não se trata de uma situação generalizada e nem podemos negar o forte impacto desta triste realidade vivida por centenas de milhares de jovens amazônidas: a pobreza, a violência, a pandemia de HIV/IST’s, a prostituição infanto-juvenil, o tráfico de drogas, o alto índice de mortes de jovens negros, a gravidez na adolescência, o desemprego e o subemprego (biscate) – observemos a quantidade de jovens vendedores ambulantes lutando pela sobrevivência nas ruas das maiores cidades da Amazônia Brasileira.

Lamentavelmente, nos últimos anos, houve um forte aumento da população juvenil encarcerada em todos os Estados e cresceu o número de jovens que aderiram às facções criminosas como “PCC (Primeiro Comando da Capital), CV (Comando Vermelho), FDN (Família do Norte), Bonde dos 30, Comando Classe A, União do Norte, etc. As unidades prisionais na Amazônia, em seus diversos Estados, estão superlotadas de jovens de 18 a 25 e que vivem em condições desumanas. Não esqueçamos os massacres das dezenas de jovens presidiários em Manaus (2017), Boa Vista (2018) e Altamira (2019).

Por outro lado, temos ainda fenômenos como o vazio existencial, a apatia, a auto-mutilação, o suicídio (nas cidades e no meio indígena), a inadequada formação profissional, o semi-analfabetismo, a pouca afeição dos jovens para com valores tradicionais (indígenas), a perda das raízes da tradição (perda da identidade), os conflitos geracionais, a cultura do descarte, a pouca afeição à Igreja, o alcoolismo, o vandalismo, a pouca perspectiva de melhoria de vida, impacto do estilo de vida e da cultura urbana no mundo rural, mentalidade consumista e sedução ideológica (cf. Instrumento Laboris, N. 16, 27, 53, 78, 140).

Apesar dessa forte nota negativa, como problema social brasileiro, é necessário ressaltar que a maioria dos jovens amazônidas, apesar da pobreza, vivem bem e milhares deles dão um eloquente testemunho de vida: estudando e trabalhando honestamente, engajados na Igreja e comprometidos em pastorais, grupos, serviços, movimentos eclesiais e sociais.

As fontes dos problemas:

Bem sabemos, que não é só isso; todavia, o “zoom” sobre os dramas juvenis presentes na região amazônica devem nos chamar a atenção enquanto líderes, educadores, sacerdotes e pastores do povo de Deus. Os jovens são parte do nosso rebanho que merecem toda a nossa atenção dinâmica, carinho e cuidado criativo.

Os jovens em todos os contextos, seja urbano, rural, indígena, quilombola ou ribeirinho, na verdade, não são os primeiros sujeitos promotores de suas desgraças! Eles são vítimas!

Por detrás de cada situação negativa temos uma série de causas estimuladoras de males, tais como: a fragmentação da família, a ausência de políticas públicas preventivas, a fragilidade da educação, a insuficiente atenção do Estado à educação, a pressão sedutora da cultura secularista, tecnicista, presentista, imediatista, economicista e hedonista, a dura pobreza que martiriza centenas de milhares de jovens da região Amazônica.

Outra grave fonte dos problemas juvenis é a inexistência da cultura do desenvolvimento humano integral por parte das diversas esferas de governos, municipal, estadual e federal; a desintegração das políticas públicas e a cultura repressiva que induz ao encarceramento em massa. Enfim, a fragmentação dos atores sociais: a família, a escola, o governo, a instituições de controle social, a Igreja.

A urgência de uma renovada Pastoral Juvenil:

Tudo isso constitui um sério sinal de alerta para o qual a Igreja, em razão da sua missão, não deve ficar indiferente e calada. A resposta pastoral da Igreja em relação aos problemas juvenis tem sido, a meu ver, ainda muito tímida; essa timidez pastoral se manifesta visivelmente através de muitos fatos e situações.

Há quase uma generalizada ausência de um projeto específico de evangelização das juventudes nas arquidioceses e dioceses da Amazônia; ainda fazemos uma evangelização genérica: “os jovens vão no meio”.

A evangelização dos jovens ainda está muito atrelada às atividades religiosas e litúrgicas; a renovação da pastoral juvenil parece ainda muito lenta e distante da psicologia juvenil; também há carência de visão de processos que supere a pastoral de eventos e manutenção.

É necessária uma urgente ampliação da visão do mundo juvenil e das suas necessidades, pois ainda não há uma clara opção pela evangelização da juventude através de outros meios como, o esporte, as artes (música, dança, teatro), lazer e entretenimento; precisamos dar atenção para a dimensão lúdica dos jovens.

Notamos a (quase) ausência de sacerdotes com especialização em pastoral juvenil nas dioceses; por isso muitos deles tem medo dos jovens, dificuldade para acompanhá-los e interagir com eles percorrendo processos de formação; facilmente delegam essa tarefa à pessoas despreparadas; muitos jovens acusam certa “carência de paternidade espiritual” em muitos sacerdotes porque os percebem com pouco tino pedagógico e carentes de empatia. Necessitam mais sinergia afetiva em relação ao dinamismo juvenil. Em muitas dioceses ainda não existe o Setor Juventude.

Outro fato que merece a nossa reflexão enquanto pastores do povo católico na Amazônia é a migração de milhares de jovens para outros cultos, filosofias e igrejas por causa da ausência ou fragilidade das nossas propostas pastorais. Está crescendo o espiritismo e a indiferença religiosa entre os jovens.

A Amazônia jovem, espera da Igreja uma decida opção preferencial, um forte relançamento da Pastoral Juvenil em todas as dioceses promovendo uma especial atenção ao acompanhamento juvenil em todos os contextos: formando jovens líderes, incentivando o protagonismo juvenil, estimulando o voluntariado, reforçando a catequese, desafiando os jovens à missionariedade, promovendo novas formas e novos meios de evangelizar as juventudes em cada situação socio-cultural.

REFLEXÃO PESSOAL:

  • Na sua diocese há um projeto específico para a Pastoral Juvenil?
  • Em que a Igreja pode contribuir com a promoção da cultura preventiva?
  • Diante dos desafios juvenis presentes na Amazônia, quais novos caminhos para a pastoral juvenil precisamos ousar?

 

Por Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB

Bispo Auxiliar de Belém – PA, membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude  CNBB.

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