Jovens pelo mundo, migrantes e refugiados, buscam um olhar de esperança

Publicado em 20 de junho de 2020 Por Seja o primeiro a comentar!

Onde está o teu irmão? (cf Gn 4,1-16)

Não nos esqueçamos que também nós fomos estrangeiros! (cf Dt 10,19)

O jovem venezuelano Guillermo Andrés Castillo Peraza, de 23 anos, olhava para seu redor e cotidiano na cidade de Maracay, próxima à capital Caracas, e tinha dificuldade de ver esperança de dias melhores. Tomar banho só era possível com um balde de água, porque a água demorava em ser restabelecida. Para comprar comida, enfrentava filas enormes e era sempre um desespero. Ir embora dali era uma opção que crescia com força em seus pensamentos, em especial pelo convite do irmão, que já residia no Brasil.

Estudando Engenharia Mecânica na Universidade Santiago Mariño, prestes a completar o curso, conversou com seus pais. “Disse a eles que iria vir para o Brasil. De início, minha mãe não aceitava porque eu já estava no oitavo período do curso. Mas insisti. Falei que ia aproveitar esses dois anos que faltavam muito melhor do que ficando por lá. E ela entendeu”, lembra.

Guillermo arrumou poucas coisas na mala e a encheu com o mais importante: a esperança. E viu também os seus amigos fazerem o mesmo e embarcaram para diversos destinos como Peru, Chile, Argentina, Equador, Colômbia, Espanha e Estados Unidos. “Todos espalhados pelo mundo. Uma grande parte deles saiu da Venezuela”.

Guillermo Andrés com a família

Embarcou para o Brasil, deixando os pais na Venezuela, mas com a certeza que tudo seria melhor. Passou por Manaus (AM) e chegou à Curitiba (PR). Tirou a residência temporária, que foi um acordo aprovado em 2017, conheceu amigos e um projeto de ajuda aos migrantes na Paróquia São José e Santa Felicidade, na capital paranaense. Morando perto da igreja, todos falavam que ali ajudavam com roupa, comida e empregos.

Neste projeto, o jovem conheceu o Padre Luis Alfonso Espinel Vargas, colombiano missionário de São Carlos Scalabrinianos e que, naquele ano de 2017, assumia a Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Curitiba (PR).

“A realidade dos jovens é ao mesmo tempo interessante e difícil. Deixar sua pátria, suas tradições, seus costumes e se encontrarem com realidades diferentes longe de suas terras muitas vezes leva a ter muito sofrimento, especialmente saudade, depressão e ansiedade. Algumas ‘doenças’ que são somente saradas com um acompanhamento, muitas vezes um espiritual, humano. Como falo alguns idiomas, isso ajuda a entender a pessoa migrante, os jovens, conversar, rezar na língua dele, que dá um sabor diferente. É um trabalho recíproco. Quando conseguimos envolvê-los aos poucos nos trabalhos da Igreja, na sociedade, inseri-los nos direitos que têm como migrantes, regularizando-os. Aos poucos, quando vamos criando esta confiança, conseguimos avanços para a vida dos jovens e fazer tantas coisas, como festas dos migrantes, culturais, religiosidade, ajudá-los a encontrar emprego, ingressar nos estudos. Assim, conseguimos preservar também a cultura deles e transmitir essa riqueza aos outros. Todo migrante é portador, respira uma grande riqueza, que nos potencializa e fortalece”, conta o missionário, que atualmente está em Manuas (AM).

A situação dos refugiados e migrantes não é novidade. Durante todo o curso da humanidade temos histórias de pessoas que deixam suas casas e partem para localidades muitas vezes muito distantes a fim de encontrarem melhores condições de vida. A própria história do Brasil comprova isso. Durante séculos, o país tornou-se uma terra de esperança para diversos imigrantes, como os italianos no século XIX, os japoneses e outros povos que fugiram das guerras no século XX.

A vida e aflição dessas pessoas sempre esteve no coração do Papa Francisco e da Igreja. Em sua primeira viagem como pontífice, dentro do território italiano, foi à Lampedusa, cidade litorânea que via diariamente o desembarque de refugiados que tentavam ingressar na Europa, tantos deles mortos no difícil trajeto, transformando o Mar Mediterrâneo em um cemitério. Na ocasião, o Santo Padre dirigiu a todos a pergunta que Deus fez a Caim: “Onde está o teu irmão?” (cf. Gn 4,1-16).

Acolhimento e inclusão para migrantes e refugiados - Vatican News

Papa Francisco em Lampedusa, em 8 de Julho de 2013, viagem para “chorar os mortos que ninguém chora”

Na Exortação Apostólica Christus Vivit, o pontífice dedica diversos parágrafos à questão dos jovens refugiados e migrantes. Papa Francisco nos diz:

“Como não lembrar os inúmeros jovens diretamente envolvidos nas migrações? Os fenômenos migratórios não representam uma emergência transitória, mas são estruturais. As migrações podem verificar-se dentro do mesmo país ou entre países diferentes. A preocupação da Igreja visa, em particular, aqueles que fogem da guerra, da violência, da perseguição política ou religiosa, dos desastres naturais – devidos também às alterações climáticas – e da pobreza extrema: muitos deles são jovens. Em geral, andam à procura de oportunidades para si e para a sua família. Sonham com um futuro melhor, e desejam criar as condições para que se realize. Os migrantes lembram-nos ‘a condição primordial da fé, ou seja, a de sermos ‘estrangeiros e peregrinos sobre a terra’ (Hb 11, 13)’. (CV, p. 91)

Padre Luiz e jovens migrantes na celebração do Sacramento da Crisma em Manaus (AM)

“Quando podemos compreender verdadeiramente o lema ‘Onde está o teu irmão?’ (cf 4,1-16), é quando temos a capacidade de reconhecer na pessoa do migrante, do jovem, do outro, o mesmo Cristo que se aproxima a cada um de nós e nos pede este apelo de reconhecimento e então expressamos nosso verdadeiro amor e verdadeira capacidade de acolher com alegria. Talvez aqueles quatro verbos que o papa sublinha muitas vezes de acolher, proteger, promover e integrar é o trabalho que buscamos desenvolver no dia a dia”, conta Padre Luis Alfonso.

Hoje, quase três anos após sua chegada ao Brasil, Guillermo Andrés estuda na Universidade Federal do Paraná (PR) e, mesmo distante ainda dos pais e sua terra, vê com esperança o futuro.

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