Renúncia do Papa: sinal de Deus

Publicado em 28 de fevereiro de 2013 Por Seja o primeiro a comentar!

“Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino” (Bento XVI). Chegou o dia e a hora marcados para a renúncia do Papa Bento XVI, que deixará a cátedra de Pedro vacante até que os cardeais elejam um novo papa. Aquilo que era mero rumor ou especulação se concretiza; aquilo que era promessa se torna realidade. O dia é hoje, a hora é agora!

Pegos todos de surpresa, esta notícia caiu como um raio, em pleno verão, no coração da Igreja e do mundo. Fui um golpe muito forte e profundo que doeu demais. Desde 1415, com a renúncia do papa Gregório XII, nunca mais um papa havia renunciado. Não estávamos acostumados e nem preparados para tanta provação e provocação. Isto explica a repercussão, a especulação e a manipulação do fato acorrido. Trata-se de um precedente histórico novo e emblemático que precisa ser lido sem isenção, com profundidade, serenidade e seriedade. Felizmente, com o passar do tempo aos poucos a dor vai sendo suavizada, o clima e os ânimos serenizados.

Deus marca a história do seu povo com muitos sinais e deixa seus recados e seus rastros em cada canto da história e em cada ângulo da nossa vida, com os quais esconde e revela uma fonte muito profunda, muitas vezes submersa em pedra e areia. Nós é que, às vezes, não sabemos decifrá-los e decodificá-los. O profeta Zacarias revelou uma profecia que se aplica bem a este momento: “ó espada, levanta-te contra o meu Pastor e contra o homem, meu companheiro (…) Fira o pastor, que as ovelhas se dispersarão” (Zc 13,7).

Aos olhos do mundo a renúncia do papa é um fato inédito que vende e dá lucro; é um terreno fértil para semear cizânia no campo onde foi semeado o trigo da Palavra de Deus. Para estas mídias, a Igreja está reproduzindo aquilo que a sociedade tem de pior: mentira, intriga, fofoca, calúnia, corrupção e acusação. Com isto não nos permitem fazer uma leitura do fato e um discernimento livre, tranquilo e sereno. No entanto, o fato é um convite para a serenidade e para termos cuidado de não divulgar e acreditar naquilo que não corresponde à realidade.

Aos olhos da fé, a renúncia do Papa Bento XVI é um sinal de Deus: um ato de coragem e de grandeza da sua alma; um ato de desprendimento, de responsabilidade, de coerência pessoal, um exemplo a ser seguido quando não tivermos mais forças, condições e capacidades para gerenciar uma obra humana ou divina. O Papa, com este seu gesto, demonstra, ao mundo, para além de uma atitude de fraqueza e resignação, ser um homem digno, corajoso, humilde e abnegado ao poder. Querendo o bem da Igreja, renuncia para dar espaço a outro, com sangue novo, para conduzir a barca de Pedro. Seu sofrimento que pode parecer sinal de esgotamento, de fraqueza e de doença, pode ser lido como um sinal de Deus para a renovação da sua Igreja num tempo complexo como o nosso.

Portanto, a renúncia do Papa é um sinal de Deus e um ato profético da Igreja. Cargo na Igreja não é honra e nem é poder no sentido de posse e de apego. O Papa, quando sentiu de perto suas limitações, renunciou ao cargo. Quantos ficam apegados ao poder, mesmo estando doentes e impossibilitados de exercê-lo plenamente? Ele, ao contrário, com a consciência tranquila de quem cumpriu seu dever diante de Deus, do mundo e da Igreja, renuncia, dizendo: eu renuncio; o cargo não é fundamental pra mim, eu cumpri a minha missão até quando eu podia cumprir. O apego ao poder, as honras, a glória do cargo, entrego a quem conduzir melhor a igreja no momento de hoje”. Se ficará na história como o papa que renunciou, ficará também como exemplo de coerência para todos.

Sem mais comentários. Reverência. Silêncio. Oração. Respeito. Obediência… pelo bem da Igreja.

 Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo metropolitano de Palmas

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