Querigma na vida dos jovens – Movido pela paixão pelo Reino de Deus

Publicado em 14 de março de 2013 Por 1 Comentário

QUERIGMA NA VIDA DOS JOVENS

Movido pela paixão pelo Reino de Deus.

 

P. Antonio Ramos do Prado,sdb (P. Toninho)

 

            Este subsídio também quer fortalecer que “no humano encontramos o divino”, porque cremos de fato que “em Jesus de Nazaré, Deus se humanizou”[1]. Esta afirmação é muito importante porque busca superar um estilo de espiritualidade desencarnada da vida humana, inclusive quando a nega.

Jesus, por sua vez, entrou no humano e passou a comunicar a novidade do Reino de Deus (Mt 4,23-24). Ele diz aos discípulos: “tenho de anunciar o Evangelho do Reino de Deus também a outras cidades, pois para isso é que me enviaram” (Lc 4,43). Esta idéia fixa e salutar de Jesus é uma atitude de paixão pelo reinado de Deus que cura, liberta, reconcilia, salva, porque “o prazo se cumpriu. O Reino de Deus está chegando. Convertam-se e creiam no Evangelho (Mc 1,15). Este germe do Reino está presente em nós pelo Batismo “e o faz crescer pela graça de conversão permanente graças à Palavra de Deus e os sacramentos”[2].

Então, o texto está orientado para proporcionar uma visão do Reino e sua consequência na vida da Igreja e na opção pelos adolescentes e jovens.

O primeiro elemento do Reino é o Querigma – a compreensão da pessoa de Jesus Cristo que anuncia sua encarnação no seio da humanidade;

Esse tema desenvolve um único esquema com a fonte bíblica, coordenadas teológicas e pastorais, pistas de reflexão. É importante a leitura pessoal, mas, sobretudo aquela compartilhada com o grupo para ampliar a responsabilidade pelo projeto do Reino que continua ainda hoje a mover a ação educativa evangelizadora da Juventude.

Também, citaremos as fontes de inspiração deste subsídio, sem, contudo, perder-nos no rigor cientifico deste estudo, porque não temos como objetivo apresentar teses teológicas, mas proporcionar elementos de reflexão, estudo, partilha e posterior aprofundamento.

 

Querigma – a compreensão da pessoa de Jesus Cristo

O grande anúncio da pessoa de Jesus Cristo esteve sempre no centro do Evangelho. A este primeiro grito da evangelização chamamos de Querigma. Quem foi Jesus Cristo? Esta é a pergunta que ultrapassou os tempos e, ainda hoje, muitos se fazem ou quando o negam ou quando o aceitam.Bento XVI no valioso livro sobre a Infância de Jesus começa ilustrando em Mateus e Lucas a origem de Jesus, uma tarefa não muito fácil, mas bastante interessante.

No século IV, Santo Atanásio, bispo, em suas homilias, assim respondeu: “O Verbo, recebendo nossa natureza humana e oferendo-a em sacrifício, assumiu-a em sua totalidade, para nos revestir depois da sua natureza divina… Nosso Salvador fez-se verdadeiramente homem, alcançando assim a salvação do homem na sua totalidade. Nossa salvação não é absolutamente algo de fictício, nem limitado só ao corpo; mas realmente a salvação do homem todo, corpo e alma, foi realizado pelo Verbo de Deus”[3].

Fonte Bíblica

No principio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Ela existia, no principio, junto de Deus.Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo que existe. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós. De sua plenitude todos nós recebemos, graça por graça. Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer (Jo 1,1-4.14.16.18).

      É importante destacar que a Palavra “tornou-se em Cristo um homem”[4]. Não entendemos esta Palavra como um discurso, uma idéia, mas o encontro com a pessoa mesma de Jesus[5]. É Jesus que vem ao nosso encontro para estar conosco como amigo. Esta novidade perpassou os séculos e impactou milhares de vida e, ainda hoje, continua a ser inaudita. Aquilo que antes era uma promessa, uma voz que ecoava, com a encarnação ganhou um rosto e, por isso, podemos ver, ouvir, contemplar e tocar (1Jo 1,1ss) a Jesus de Nazaré[6].

Esta concretização da Palavra é fundamental no anúncio de Jesus porque não o imaginamos nem o criamos segundo nossos delírios, como negativamente afirmam alguns agnósticos, mas reforçados pelos testemunhos daqueles que estiveram com Ele, fundamentamos nossa fé dizendo:

Ele manifestou-Se, mostrou-Se, saiu da luz inacessível em que habita. Ele, em pessoa, veio para o meio de nós. Na Igreja antiga, esta era a grande alegria do Natal: Deus manifestou-Se. Já não é apenas uma idéia, nem algo que se há de intuir a partir das palavras. Ele «manifestou-Se». Mas agora perguntamo-nos: Como Se manifestou? Ele verdadeiramente quem é? A este respeito, diz a leitura da Missa da Aurora: «Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens» (Tt 3, 4). Para os homens do tempo pré-cristão – que, vendo os horrores e as contradições do mundo, temiam que o próprio Deus não fosse totalmente bom, mas pudesse, sem dúvida, ser também cruel e arbitrário –, esta era uma verdadeira «epifania», a grande luz que se nos manifestou: Deus é pura bondade. Ainda hoje há pessoas que, não conseguindo reconhecer a Deus na fé, se interrogam se a Força última que segura e sustenta o mundo seja verdadeiramente boa, ou então se o mal não seja tão poderoso e primordial como o bem e a beleza que, por breves instantes luminosos, se nos deparam no nosso cosmos[7].

Como Ele se manifestou? Jesus de Nazaré oriundo da Galileia, filho de Maria e, juridicamente de José, porque nasceu pela ação do Espírito Santo, portanto gerado, não criado, fala do Reino do Pai; “ele se apresenta com sua vida, com sua palavra e com os sinais de toda a sua prática como o evangelizador e o servo do Reino de Deus, convidando à conversão e ao seguimento[8].

É muito sugestivo que na parábola da Videira (Jo 15,1-8), Jesus diga que nós somos os ramos e ele é a videira. Há, portanto, um vínculo muito forte de amizade com ele que nos faz participantes da vida do Ressuscitado, gerando assim uma nova família que compartilha com ele a missão recebida. Assim, diante da Palavra humanizada, nos tornamos discípulos missionários[9].

Considerações teológicas  pastorais

     Quem é Jesus Cristo? Esta pergunta é muito importante, sobretudo quando a fazemos a partir da práxis sacramental.O batismo, que é sacramento, exatamente porque se trata de um SINAL SAGRADO que faz memória de Jesus Cristo profeta, sacerdote e rei, significa que uma pessoa ao ser batizada entra a fazer parte desta comunidade que atualiza hoje a pessoa de Jesus Cristo e, é, também, profeta, sacerdote e rei.

 

Na vida de Jesus Cristo colhemos duas atitudes fundamentais: a gratuidade e o amor ao próximo. Jesus não pediu nada em troca de um gesto. Ele curou, perdoou os pecados, multiplicou o pão e o peixe, acalmou os ventos e o mar agitado, ressuscitou seu amigo Lázaro, a filha de Jairo e o filho da viúva de Naim, acolheu a pecadora arrependida, não apedrejou a adúltera, não condenou o ladrão arrependido. Simplesmente Jesus manifestou em seus gestos e palavras que a gratidão é fruto do reconhecimento da justiça do Pai e da sua gratuidade, pois, Deus Pai nos dá tudo gratuitamente, começando pelo dom da vida.

 

Mais ainda. Jesus foi humano ao sentir fome e sede, alegrias e tristezas, amor e compaixão verso o próximo. Ninguém passou por ele sem receber uma resposta para suas angústias e pedidos. Ao chefe da guarda que tinha um soldado doente e quase à beira da morte que pediu que Jesus o ajudasse, mesmo não entrando na sua casa, ele se comoveu e curou de longe aquele servo. Jesus foi movido pela compaixão, quer dizer, ele sentia a mesma dor da pessoa que pedia, que não enxergava, que não tinha comida, que era excluído. Jesus foi todo voltado para o outro. O cristão, que entra na família de Jesus a partir do Batismo, é pedido exatamente essas duas atitudes.

 

Ele mesmo, Jesus, foi até o Jordão para receber o batismo de João Batista ((Mc 1,9). Entrou assim no movimento de João que exigia “um novo modo de pensar e de agir, ligado sobretudo ao anúncio do Juízo de Deus e à proclamação de alguém maior que que há de vir depois de João”[10]. Este movimento Joanico, no qual Jesus se inseriu, atraia multidões (Mc 1,5), porque simbolizava o sentido de justiça de Deus que no seu tempo devido iria restaurar todas as coisas. Será, exatamente no Mistério pascal, que toda esta nova realidade iniciada no batismo no Jordão, nos ajudará a compreender o Mistério de Jesus Cristo, o missionário do Pai que assume sobre si o jugo daqueles que sofrem e, na compaixão, ele se unirá plenamente a restauração de tudo e de todos. Ao mergulhar nas águas do Jordão, Jesus vai à “habitação do mal, luta com o forte que mantém os homens cativos”[11].

 

O querigma é assim a “força vivificadora de Deus que nos é oferecido em Cristo morto e ressuscitado. Isso é o que primeiro necessitamos anunciar e também escutar, porque a graça tem primado absoluto na vida cristã e em toda a atividade evangelizadora da Igreja”[12]. Assim sendo, o cristão, participa da missão profética, sacerdotal e real de Jesus. Sacerdotal porque se une a Cruz do Senhor no sacrifício eucarístico, na oferta de si e de todas as suas atividades (Rm 12.1-2). Participa do profetismo de Cristo na medida em que testemunha com a vida a Palavra de Deus que salva e não tem medo de denunciar o mal. Como realidade real o cristão é um combatente espiritual para vencer o pecado (Rm 6,12), mediante o dom de si e a prática da justiça.

 

Conseqüentemente, Jesus Cristo, nos comunica a vida e o serviço pela vida. Não é possível seguir Jesus sem estar comprometido com a vida:

 

Quando dignifica a samaritana (Jo 4,7-26), quando cura os enfermos (Mt 11,2-6), quando alimenta o povo faminto (Mc 6,30-44), quando liberta os endemoniados (Mc 5, 1-20). Em seu Reino de vida, Jesus inclui a todos: come e bebe com os pecadores (Mc 2,16), sem se importar que o tratem como comilão e bêbado (Mt11,19);toca com as mãos os leprosos (Lc 5,13), deixa que uma prostituta lhe unja os pés (Lc7,36-50) e, de noite, recebe Nicodemos para convidá-lo a nascer de novo(J0 3,1-15),o amor pelos inimigos(Mt5,44) e a opção pelos mais pobres (Lc 14,15-24)[13].

 

Pistas para reflexão

 

  1. Compreender Jesus Cristo é fundamental para a missão evangelizadora: quem é Jesus Cristo para você?
  2. Jesus assumiu a causa do mais necessitado: como você concretiza na sua vida o profetismo, o sacerdócio e a capacidade de liderar pessoas?
  3. Jesus é a Palavra humanizada: como você experimenta a espiritualidade: negando a felicidade ou integrando nas escolhas de cada dia a compaixão que movia Jesus?

 

 



[1]CASTILLO, José M., Espiritualidade para insatisfeitos, São Paulo: Paulus, 2012, p. 109.

[2]CELAM, V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida, texto oficial, Brasília: CNBB, 2007, n. 382

Obs: Esse subsídio é feito a partir carta da Estréia do ano de 2013 para a família salesiana escrita pelo Superior Geral dos Salesianos de Dom Bosco.

[3] Das cartas de Santo Atanásio, bispo, Epist. Ad Epictetum, 5-9: PG 26, 1058, 1062-1066, In Liturgia das Horas I, p. 435.

[4]BENTO XVI, Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini, sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, São Paulo: Paulinas, 1ª ed.,2010, n. 11.

[5]BENTO XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est (25/12/2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218.

[6]BENTO XVI, Exortação Apostólica pós-sinodal Verbum Domini, n. 12

[7] Homilia de Bento XVI, (24/12/2011,  solenidade do natal do Senhor.

[8]PERESON, Mario I., Seguir a Jesucristo tras las huellas de Don Bosco, Bogotá: Kimpres Ltda,2006, p. 119.

[9]CELAM, V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida, n. 132-135.

[10]BENTO XVI, Jesus de Nazaré, 1ª parte, do batismo no Jordão à transfiguração, São Paulo: Planeta do Brasil, 2007, p. 31.

[11]Ibid., p. 35

[12]CELAM, V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, n. 348

[13]Ibid., n. 353

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