Papa Francisco: os jovens são profetas com asas

Publicado em 21 de março de 2018 Por Seja o primeiro a comentar!

O texto abaixo foi retirado do novo livro do Papa Francisco, “Deus é jovem”, uma conversa com Thomas Leoncini, que será lançado nesta terça-feira, 20 de março, em todo o mundo, em vista da Jornada Mundial da Juventude de 25 de março.

O trecho do livro foi publicado por La Stampa, 19-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis o texto.

Para entender um jovem hoje, você deve entendê-lo em movimento, não pode ficar parado e esperar se encontrar na sua sintonia. Se quisermos dialogar com um jovem, devemos ser móveis, e então será ele quem vai diminuir a velocidade para nos escutar, será ele quem decidirá fazer isso. E, quando diminuir a velocidade, começará outro movimento: um movimento em que o jovem começará a estar em um ritmo mais lento para se fazer ouvir, e os idosos acelerarão para encontrar o ponto de encontro. Ambos se esforçam: os mais jovens para andar mais lentamente, e os mais velhos para andar mais rápido.

Isso poderia marcar o progresso. Gostaria de citar Aristóteles, que, na sua Retórica(II, 12, 2), diz: “Para os jovens, o futuro é longo, e o passado, curto; na verdade, na manhã da vida, não há nada para recordar, enquanto se pode esperar de tudo. Pelo que acabamos de dizer, os jovens são fáceis de enganar, porque esperam facilmente. E são mais corajosos, pois são impulsivos e otimistas: a primeira dessas qualidades impede-os de ter medo, a segunda inspira-lhes confiança, porque nada se teme quando se está zangado, e o fato de se esperar algo de bom é razão para se ter confiança. E são indignáveis”.

Um jovem tem algo do profeta e deve se dar conta disso. Deve estar ciente de que tem as asas de um profeta, a atitude de um profeta, a capacidade de profetizar, de dizer, mas também de fazer. Um profeta de hoje tem capacidade, sim, de condenação, mas também de perspectiva. Os jovens têm essas duas qualidades. Sabem condenar, mesmo que muitas vezes não expressem bem sua condenação. E também têm a capacidade de perscrutar o futuro e olhar mais para a frente.

Mas os adultos muitas vezes são cruéis, e toda essa força dos jovens, deixam-na sozinha. Os adultos muitas vezes erradicam os jovens, arrancam suas raízes e, em vez de ajudá-los a serem profetas pelo bem da sociedade, tornam-nos órfãos e descartados. Os jovens de hoje estão crescendo em uma sociedade desenraizada.

Por isso, uma das primeiras coisas que devemos pensar como pais, como famílias, como pastores, são os cenários onde podemos nos enraizar, onde podemos gerar vínculos, onde podemos fazer crescer aquela rede vital que nos permita nos sentirmos em casa. Para uma pessoa, é uma terrível alienação sentir que não tem raízes; isso significa não pertencer a ninguém.

Hoje, as redes sociais parecem nos oferecer esse espaço de conexão com os outros; a web faz com que os jovens se sintam parte de um único grupo. Mas o problema que a internet envolve é sua própria virtualidade: a web deixa os jovens no ar e, por isso, extremamente voláteis.

Gosto de lembrar uma frase do poeta argentino Francisco Luis Bernárdez“Por lo que el árbol tiene de florido, vive de lo que tiene sepultado”. Quando vemos belas flores nas árvores, não devemos nos esquecer de que podemos desfrutar essa visão apenas graças às raízes.

Eu acho que um caminho forte para nos salvar é o diálogo, o diálogo dos jovens com os idosos: uma interação entre velhos e jovens, passando por cima até, provisoriamente, dos adultos. Jovens e idosos devem se falar e devem fazer isso cada vez mais frequentemente: isso é muito urgente! E devem ser os velhos, tanto quanto os jovens, que tomam a iniciativa.

Há uma passagem da Bíblia (Joel 3, 1) que diz: “Os anciãos terão sonhos, e os jovens terão visões”. Mas esta sociedade descarta ambos, descarta os jovens, assim como descarta os velhos. Mas a salvação dos velhos é dar aos jovens a memória. Isso faz dos velhos autênticos sonhadores de futuro. Enquanto a salvação dos jovens é tomar esses ensinamentos, esses sonhos e levá-los em frente na profecia.

Velhos sonhadores e jovens profetas são o caminho da salvação da nossa sociedade desenraizada: duas gerações de descartados podem salvar a todos.

 

Moisés Sbardelotto
Doutor e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).Possui graduação em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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