A promoção da Cultura do Encontro na comunicação

Publicado em 15 de julho de 2014 Por 1 Comentário

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Paulo Vitor Giraldi Pires é jornalista, mestre em Comunicação Midiática pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Bauru) e especialista em Linguística e Educação. É aluno do doutorado em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Atua como Analista de Comunicação na Assessoria de Imprensa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

É docente da Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estácio de Sá – Faculdade de Ciências Sociais e Tecnológicas (FACITEC), em Brasília (DF). Possui experiência profissional de mais de oito anos nas mídias católicas, em jornal, TV, rádio, revistas e sites. Desenvolve estudos em mídia, religião, Políticas de Comunicação e Pastoral da Comunicação. Integra os Grupos de Pesquisa sobre o Pensamento Comunicacional Latino-Americano e Comunicação Digital, Interfaces Culturais na América Latina do CNPq e o Grupo Eclesiocom de Estudos em Comunicação e Religião da Cátedra UNESCO da Universidade Metodista (UMESP).

Ele estará presente como palestrante no 4º Encontro Nacional da Pastoral da Comunicação e 2º Seminário Nacional de Jovens Comunicadores e fala em entrevista aos Jovens Conectados sobre a dinâmica comunicacional no ambiente eclesial.

Com um currículo tão interessante, porque escolheu a igreja para trabalhar?

Em 2005, quando ingressei para a faculdade de Jornalismo, o Prof. Dr. Luís Henrique Marques, engajado nos trabalhos da Pastoral da Comunicação (Pascom) da diocese de Bauru me convidou para participar da equipe. A partir daquele dia, senti o desejo de dedicar minha atuação profissional a serviço da Igreja. Percebi que, como tantas outras vocações, eu poderia exercer o meu sacerdócio diário no jornalismo, buscando por meio da técnica e do conhecimento, caminhos para comunicar com qualidade e eficácia. Considero o jornalismo um sacerdócio, um exercício diário da inteligência e da nossa humanidade, pois a matéria prima da informação e da comunicação são as pessoas. O jornalismo se faz com a vida e em prol da vida.
Já na graduação, decidi participar da Iniciação Científica, na qual produzi uma pesquisa sobre o “Jornalismo Relgioso na TV”. A partir daquela experiência com a investigação científica, vi um caminho de possibilidades que foi aliar a pesquisa e minha formação profissional. Nascia à paixão pela ciência. Isso aumentava, ainda mais, o amor pela Igreja, pois descobria que o conhecimento tornava-me mais íntimo da Palavra, das leituras, instruções pastorais, encíclicas, ensinamentos do Papa, etc.
Já no último ano da faculdade, não tive dúvidas sobre o que iria desenvolver como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Atuando como vice-coordenador da Pastoral da Comunicação da diocese de Bauru, queria contribuir de alguma forma para a ampliação das atividades diocesana de comunicação. Então, desenvolvi o projeto de uma revista informativa para a Diocese chamada “Conversa”. Pensei todo o projeto com a colaboração de diversos profissionais, conselho editorial, jornalistas, publicitários, relações públicas, designer. Com o apoio do bispo local, do clero, paróquias e comunidades, lançamos a revista em 2010.
A “Conversa” nascia com uma proposta inovadora, não iria falar apenas da Igreja para a Igreja, mas da Igreja para a sociedade. Com abordagens e temas diversos, trazia a colaboração de especialistas de diferentes áreas. O projeto era autosustentável, pois contávamos com publicidade de três grandes editoras do Brasil: Paulus, Ave-Maria e Vozes. Formamos uma equipe de redação, de vendas e atendimento aos assinantes, com uma sede própria da “Conversa”. A revista “Conversa” ficou conhecida e tornou-se capítulo de livro organizado pelo professor José Marques de Melo, após ser apresentada em diversos congressos científicos do Brasil e até no exterior.
Foram exatamente 2 anos de um bonito trabalho, onde exerci a atividade de editor da Conversa e pude ver tantos frutos e trabalhar ao lado de excelentes profissionais da comunicação. Após concluir o mestrado em Comunicação Midiática na UNESP em Bauru, recebi outras propostas de trabalho. Comuniquei a bispo diocesano do meu desligamento das atividades da “Conversa” e propus que outra equipe levasse adiante o trabalho, mas não houve interesse. Infelizmente e com pesar tive que presenciar o “fim” da revista, um sonho, um projeto que se tornou realidade e percorreu o mundo, pois tínhamos diversos assinantes do exterior. Mas, em mim, a “Conversa” continua sempre viva, por meio de novos projetos, ideias e sonhos que alimento todos os dias.

Você vê a comunicação como um bom instrumento de evangelização?

Quando falamos em “Evangelização” é preciso ter em mente a dinâmica e profundidade dessa experiência. Evangelizar não se trata apenas de emitir e difundir mensagens bonitas na internet, nas redes sociais, versículos bíblicos, etc. Tudo isso são “motivações” para que a Evangelização ocorra em sua essência e eficácia na vida em comunidade. Hoje, temos a nossa disposição diversas ferramentas de comunicação e informação, como são as mídias sociais digitais, a televisão, o rádio, a internet. Todas essas plataformas tecnológicas podem nos ajudar a “motivar” e “animar” as pessoas e a nós mesmos, para algo maior que é o desejo de ir ao encontro da comunidade, participar da vida em comunidade, entalecer laços de fraternidade e acolhida. A evangelização ocorre por meio da comunicação, pois comunicamos e partilhamos a Boa Nova de Jesus Cristo. Porém, nas redes sociais, na internet, por meio da televisão, inicia o que chamamos de um “despertar” para algo maior, mais profundo, sólido e consistente que é o encontro com o Cristo na comunidade, no contato com os irmãos. Claro, não podemos negar que existam outros caminhos para a experiência religiosa e da religiosidade, mas nada supera o abraço, o olhar, o aperto de mão, a partilha que podemos experienciar na comunidade. Como recorda o atual Documento 100 da CNBB, “seria um grave problema eclesioógico e pastoral se um site ou uma emissora de televisão possibilitasse que o fiel se vinculasse apenas aos meios de comunicação com celebrações, doações e vínculo associativo prejudicando a participação na comunidade paroquial” (n.316).

Você trabalha há 8 anos com comunicação dentro da Igreja Católica, como tem visto o desenvolvimento da Pascom durante esses anos?

A Comunicação Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB, responsável por animar e articular a Pastoral da Comunicação, é a grande responsável por incentivar todas essas inovações que temos presenciado da vida da Igreja no Brasil, quando se trata da comunicação. Ela vem cumprindo seu objetivo de formar, animar e articular a comunicação nas dioceses, paróquias, comunidades, grupos, organismos, movimentos, etc. Presenciamos um momento marca da Comunicação Pastoral com a publicação do Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. O Documento é reflexo de mais de 13 anos de pesquisas, análises e práticas de comunicação. Evoluiu e está evoluindo a cada dia a Pastoral da Comunicação com o despertar de outros nichos, integração e convergência das atividades dos veículos católicos; televisões, emissoras de rádios, jornais, revistas, sites e portais que trabalham com a comunicação religiosa. Ou seja, a Pascom cresceu, não é apenas uma pastoral de paróquia, se tornou a grande motivadora das diferentes expressões e iniciativas de comunicação na Igreja no Brasil e, para aqueles que atuam na comunicação, comprometidos com os valores éticos, humanos e cristãos. A Pascom não é apenas para católicos, é para os que desejam ser protagonistas de uma verdadeira comunicação que promova a “Cultura do Encontro”.

As mídias digitais trouxeram um grande desenvolvimento para a propagação da informação como um todo, mas isso requer também um crescimento no aprendizado por parte dos comunicadores. Você vê esse preparo por parte de quem comunica a informação dentro da Igreja Católica?

Na minha dissertação de mestrado trabalhei justamente essa temática, por observar a ausência de preparo técnico e profissional na atividade de comunicação nas dioceses no Brasil. Foram dois anos de pesquisa e abordagens com agentes e profissionais que atuam nas dioceses, entre eles jornalistas. O resultado da pesquisa trouxe importantes indicativos, por um lado o crescimento da atividade profissional e a contratação de jornalistas nas dioceses, a melhoria e ampliação da atividade de comunicação na Igreja, à diversidade de produções midiáticas e massivas sejam elas na internet, na TV, no rádio, nos jornais e revistas. Por outro, após verificar todos esses importantes avanços, constatamos a necessidade de uma “qualificação do processo comunicacional”. Ou seja, agora estamos diante de um contexto midiático que exige a gestão da informação e a comunicação religiosa, a fim de ela atinja os objetivos esperados. Todo o processo precisa ser qualificado, com formações técnica e humana, pesquisa, investimentos, etc. Nós que atuamos na comunicação precisamos de formação e atualização constantes. Sem preparo adequado corremos grande risco de “reproduzir” e não produzir e pensar em novos conteúdos. As mídias sociais digitais estão aí, a todo o vapor, cada vez mais presentes em nossas vidas. Contudo, não podemos cair na ilusão de que quantidade de “seguidores”, “curtidas”, compartilhamentos e acessos nas redes sociais da Igreja signifiquem que “estamos evangelizando”. É necessário repensar o processo comunicativo na internet, com qualidade e criatividade de conteúdos. Vale lembrar que rede social não é espaço para “doutrinação”, mas para diálogo, aproximação e partilha comum.

O Papa Francisco, em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações, ressaltou a importância da “Comunicação a serviço de uma autêntica cultura do encontro”. Como você vê o assunto? Acha possível que o pedido de nosso Papa seja atendido?

O tema refletido pelo papa Francisco, na mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações, contém cinco palavras com profundos significados: comunicação, serviço, autêntica, cultura e encontro. São caminhos necessários para uma nova consciência da vida em sociedade. Infelizmente, deixamos de lado atitudes como a de “servir”, ser útil para alguém que precisa de nós. Hoje, o individualismo tem prevalecido, ao invés de comportamentos solidários e fraternos. O problema é maior, ainda, quando se trata de “autenticidade” das relações humanas, do compromisso com a verdade e postura motivada pela ética. O papa Francisco nos convoca a um importante desafio: viver a comunicação autêntica, que serve ao próximo e possibilita o encontro solidário entre as culturas e as diferenças. Mas, essa atitude requer disposição de ir ao encontro do outro, é verdadeira atitude de acolhida, escuta, disposição para amar. Porém, não é possível encontrar-me com alguém (ir ao encontro) se não estou aberto e vazio dos meus preconceitos, se permaneço fechado no ego, em atitudes de discriminação e individualismo. Compreendo que a cultura do encontro refletida pelo papa Francisco é um convite a todos nós para sairmos das “ilhas” em que vivemos. Encontro não é troca, ganho ou investimento pessoal. Encontro é oportunidade e possibilidade de conviver, partilhar a vida e humanizar nossas relações. O fruto de tudo isso poderá ser uma sociedade mais tolerante, fraterna e de paz.
O tema que abordará no encontro nacional da Pascom “Igreja em mediação: atuação de jornalistas nas dioceses do Brasil”, trata de um assunto importante a se estudar. Qual é a realidade que vê hoje a respeito e o que se espera para um futuro próximo?

Com o crescimento da atividade profissional e a contratação de jornalistas nas dioceses, melhoria e ampliação da atividade de comunicação na Igreja, à diversidade de produções sejam elas na internet, na TV, no rádio, nos jornais e revistas, estamos sendo desafiados a qualificar o processo da comunicação religiosa. Com o advento das tecnologias da informação e da comunicação surgem também as necessidades de gestar todo o processo hibridizado neste contexto da convergência midiática. Sem uma gestão eficaz, com todos os atores envolvidos no processo (profissionais, empresa, gestores, diretores, público, leitores, ouvintes, etc), a comunicação empobrece, caindo da mesmice e na repetição. Infelizmente temos presenciado em nossos meios massivos e midiáticos, uma comunicação pobre, fraca, sem conteúdos, sem criatividade ou inovações. Todo o processo precisa ser qualificado, com formação técnica e humana (orgânica), com pesquisas e investimentos, etc.
Vislumbro um futuro tão presente e muito promissor para a comunicação religiosa e, principalmente, para o jornalismo religioso que tem se formatado em uma importante editoria. Mas, tudo isso exige estudo, dedicação e capital humano. Nossas dioceses são importantes difusoras da comunicação, por isso, aliadas ao trabalho de profissionais jornalistas, relações públicas, publicitários, entre muitos outros, poderão produzir uma comunicação mais eficaz e consistente.

Você acredita que os comunicadores que atuam em nossas Dioceses estão preparados para promover a “Cultura do Encontro”?

Para a vivência da Cultura do Encontro, precisamos olhar para Nossa Senhora das “Bodas de Caná”, Ela nos ensina a ousadia, a disposição e a humildade, características indispensáveis para nós jornalistas e para todos aqueles que atuam e desejam atuar nas diferentes áreas da comunicação.

OUSADIA: Faltou vinho, porém Maria estava atenta às necessidades daquele momento. Não teve atitudes precipitadas, com desespero. Na calma, com serenidade, chamou os discípulos e disse: “Fazer o que Ele vos disser”. Precisamos ter ousadia na comunicação para anunciar a Boa Nova de Jesus, sem medo. Estarmos atentos às necessidades dos nossos irmãos a nossa volta. No casamento, faltou vinho. E hoje, o que está faltando em nossa sociedade e que nós podemos oferecer? Faltam os valores e o testemunho cristão de cada um de nós. Estamos carentes do diálogo, do respeito, de atitudes de fraternidade, acolhida. Podemos em nosso dia a dia, em nossas redações, jornais, revistas, rádios e TV´s, anunciar mais a esperança e menos a tristeza. Podemos gerar mais atitudes de paz e menos gestos de intolerância e guerra.

Para isso, é preciso DISPOSIÇÃO: Se Maria não tomasse atitude de falar com Jesus e com os discípulos, nada teria acontecido. Nenhum milagre acontece como um passe de mágica, exige sempre a nossa entrega, a nossa disposição. Continuaremos a ver em nossos telejornais notícias de violência se não agirmos, urgentemente. Somos a nova geração de comunicadores deste nosso país e precisamos fazer a diferença. Temos competência para isso, só nos falta disposição em assumirmos o compromisso de sermos protagonistas da Boa Nova da Comunicação, que é o amor.

Sabemos que não é fácil e teríamos muitas justificativas para dizer que “não é possível”. Mas, não esqueçamos que Maria apenas silenciou, orou em seu coração. Teve confiança, Ela acreditou na graça de Deus. E, nós, confiamos nesta mesma graça? Deixamos nos envolver pela presença do Espírito Santo que conduz e nos orienta?

Diante das dificuldades e limites de nossa atuação como comunicadores, não podemos esquecer a HUMILDADE. Infelizmente temos a ilusão de pensar que fazer comunicação é ter fama, glamour, reconhecimento social. Sim, muitas vezes isso é inerente à atuação profissional, mas não deve ser nossa meta. Nós cristãos e agentes da Pastoral da Comunicação, não podemos esquecer que nosso maior compromisso é estar a serviço do próximo, servir; ir ao encontro de quem precisa de nós. A humildade é o caminho para uma comunicação eficaz que atinja os corações de quem lê, acessa, ouve e assiste as nossas produções nos diferentes meios de comunicação. Seja no “jornalzinho” ou no “jornalzão”, o importante não é a proporção ou a quantidade de comunicação que produzimos, mas a qualidade do que falamos e anunciamos. A mensagem de Jesus deve chegar a todos, sem exceção, pelos mais modernos recursos midiáticos e digitais, porém com a força salvífica e libertadora que possui. Não é a nossa mensagem, o nosso discurso que deve prevalecer, e sim, os ensinamentos e a verdade de Jesus.

Deixe um recado aos jovens comunicadores que colocam seu dom à serviço da Igreja
Assim como dizia o nosso amado São João Paulo II, o jovem é fonte de potencial, criatividade e ousadia. Não desperdicemos nossos talentos, dom de Deus, com coisas efêmeras. Coloquemos nossos dons à serviço da Igreja, do nosso próximo, em vista de uma sociedade mais igualitária, justa e fraterna. Aos colegas jornalistas, aos estudantes de comunicação, peço que permitam serem conduzidos pela ação do Espírito Santo, sem medo. Confiem e acreditem que toda a criatividade, inteligência e sabedoria estão no coração de Cristo, do qual precisamos nos aproximar dia a dia, na intimidade da oração, da Palavra e da Eucaristia. Não é possível fazer comunicação vazios de verdade, de santidade e espiritualidade. Se queremos atuar como jornalistas e fazer a difereça, precisamos estudar, pesquisar, investir em nossa formação técnica, humana e espiritual. A sociedade precisa de nós, para darmos testemunho da verdade que é o Cristo vivo e verdadeiro, presente em cada rosto humano.

Por: Débora Sabino

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